Da Guiné. Das palavras

Está nú. Grita “sombra,sombra”. Uma lona protege-o do sol cortante. A sombra será o derradeiro conforto do soldado na insanidade da guerra colonial. É díficil não adivinhar os traços da Pietà na imagem daqueles homens que embalam nos braços o companheiro agonizante. “Estás à sombra.Porra!”

Precisei  de anos para conseguir  ver esta reportagem, de 1969, que contém imagens reais, chocantes, de uma emboscada na Guiné. Surpreende-se a morte em acção. Os olhares dos militares portugueses e guineenses não precisam de transcrição. São um registo  incontroverso da realidade, que numa palavra, nenhum relato  por mais imparcial jamais poderá ser. Peões num jogo de poder uma ditadura bafienta .

Quem nunca esteve numa guerra dificilmente tem uma imagem suficientemente vívida do pesadelo. E dificilmente compreende a dificuldade em encontrar palavras que dissolvam a sombra que se instala, o insuportável, o combater sem saber porquê. Até hoje o meu pai emudeceu os anos no mato.Engoliu-os, torturando-se por dentro. A Guiné privou-me de pai.

Anos, muitos anos mais tarde, muito mapa palmilhado, entendi que o desespero é uma traça que tudo corroí. Por vezes até a própria dignidade. E depois há as feridas e as defesas. Os profissionais da catástrofe, jornalistas, trabalhadores humanitários, soldados estão demasiado próximos do sofrimento absoluto, do abismo. Se dão um passo demasiado largo deixam o mapa que confere alguma ordem ao caos do vivido, perdem a capacidade de se comover, de empatia. E essa linha entre a blindagem e o sentir é demasiado ténue. Conheço uma trabalhora humanitária que  dava  meias a crianças soldado no Ruanda. Porque não sapatos? Um menino a quem ela ofereceu o primeiro par de sapatos que ele havia usado na vida, nem para dormir os descalçava, ficando com os tornozelos numa chaga. Quando ela lhe pediu por favor para os tirar o miúdo disse: não os posso largar, não me resta mais nada.

Coleccionei algumas imagens assim. Que nunca me deixam. Outras fui buscá-las a fotografias, a documentários.

“Na medida em que nos sentimos solidários, sentimos que não somos cúmplices das causas do sofrimento. A nossa solidariedade proclama a nossa inocência, assim como a nossa impotência”. As palavras são de Susan Sontag e apetece-me querelar com elas. Concedo que a particular acusação de algumas imagens acaba por se diluir, sobretudo em profissões cínicas como a minha, e a que comoção é demasiadas vezes passageira. Lágrima quente que escorre e se evapora, sem se tornar sal.

Contra o zapping mental ajudam as palavras. Curam. Estás a ouvir pai?

PS- O vídeo contém imagem chocantes. Se tiver coragem veja-o.

-Lembrei-me desta reportagem porque estou a escrever sobre Amílcar Cabral e o seu sonho de liberdade para a Guiné.” Um pais livre da miséria, do sofrimento.Onde a população não seja oprimida por estrangeiros, nem por africanos”. Como te traíram Cabral.

– Num dos absurdos da guerra, um empregado dos meus pais, o meu protector A., simpatizante do PAIGC, levava-me  por vezes ao colo para forade Bissau, arrancando uma permissão contrariada à minha mãe. Queria mostrar a “sua menina” branca. Dois lados do mesmo mato.

-Quis partilhar antes de partir para Maputo. Até breve.

Anúncios

One thought on “Da Guiné. Das palavras

  1. Helena, com o seu artigo me despertou a saudade de Africa.
    Sou filho de militar com comissoes em Africa.que somadas dao quase 20 anos.

    Meu irmao mais velho foi com meus pais quando tinha 6 meses de idade para a Guine e regressou a Lisboa com 6 anos, Eles viveram o inicio da guerra (55 – 63 ). Mais tarde fomos todos para Luanda, Angola. La eu vivi desde os meus 4 anos ate aos 9 anos (1972 – 75) e regressei evacuado na ponte aerea de Luanda – Lisboa
    Tudo o que assistimos, tudo o que vivemos, quando falo, ninguem acredita… 😦

    Obrigado pelos seu artigos que fazem com que esse tempo nao caia em esquecimento.

    Desejo uma boa viagem para Maputo. Aproveite o tempo por lá e nao esqueca de nos contar depois como foi.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s