Atravessar o estreito

No Ocidente as historias começam com “Era uma vez”. No Egipto por “Kan ya makan”, que tanto pode significar “aconteceu”, como “não aconteceu”, na sedutora flexibilidade do árabe.

“Uma manhã cheia de bênçãos, uma manhã cheia de luz”, era assim que me saudavam no Cairo. Mesmo quando dia amanhecia turvo e a vida circundava o abismo. Sopra dentro de mim um vento de nostalgia ao pensar na poesia bruta contida naquelas palavras, que eu bebia junto com o primeiro café com cardamomo da manhã.

Escolher as palavras certas é um dos exercícios mais difíceis desta vida. Existem as palavras certas? Quantas vezes tacteamos o outro sem lhe tocar. Há palavras que são continentes de egoísmo. Suspendemos amizades por palavras mal escolhidas, magoamos e deixamos magoar-nos.

Palavras mal escolhidas, irreflectidas são domadores de circo de província, esgotam a nossa capacidade de deslumbramento. E há as que não dizemos, que suspendemos, às vezes até ser tarde. Por vezes tarde de mais.

Queria usar mais vezes palavras que fossem uma espécie de estreito do Bósforo da vida, atravessando uma fronteira que não existe, deixando de um lado um continente de orgulho, de complacência, de mesquinhez, que acaba e entrando num continente novo. De afectos.

As historias não terão todas um final feliz, mas a vida só consegue ser vivida na plenitude se não escondermos atrás de biombos.

PS – Aceitem um enorme abraço que o estreito da vida atravessa-se demasiado depressa. E sim eu gosto de pessoas boas.

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6 thoughts on “Atravessar o estreito

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