God bless America

A fotografia mostra uma menina de compridos louros. Veste uma tshirt branca com um coração, calças de ganga e uns ténis coloridos. Ri. Tem nove anos e segura na mão uma AK 47. Não uma de plástico, daquelas que num assomo de loucura alguns pais oferecem pelo Natal, mas uma Kalaschnikov verdadeira. A cena passa-se na Florida, a duas horas de distância de carro da Disney World, e a menina pertence a uma milícia denominada “North Florida Survival Group”, fundada por Jim Foster, um ex-polícia.

Esta milícia da Florida, integrada por outras crianças é uma das mais de duzentas milícias existentes nos Estados Unidos, quadruplicaram desde a chegada de Obama ao poder, com a “missão” de proteger a família e ensinar autodefesa. “Aprende a sobreviver a qualquer catástrofe”, promete “North Florida Survival Group” na sua página da internet. A formação é gratuita, “só tem que trazer a sua própria arma”.

Os americanos discutem com paixão os seus crimes armados violentos, os seus massacres, Columbine, Newtown, e recusam-se a mudar a narrativa. Um paradoxo.

A realidade -americana é tão esquizofrénica que é nos Estados Unidos onde se encontra os mais lúcidos e corajosos opositores ao lobby do armamento, a par dos que acreditam, com uma maior ou menor dose de ingenuidade, na ilusão maior de que com uma arma na mão podem controlar o mundo à sua volta.

Já tudo parece ter sido escrito e rescrito na imprensa, nos blogs sobre a posse de armas nos Estados Unidos. Guardados e protegidos pela distância de um Oceano qualquer até nos habituamos a isto.

Fora do alcance do nosso olhar os conflitos em África fizeram ( e ainda fazem) milhões de meninos soldados, sem direito a uma nota de rodapé nos cínicos telejornais ocidentais. O nosso mundo confortável não gosta de ser incomodado com tais pormenores. Em África, na Ásia, bandidos sem escrúpulos, puseram a morte na ponta de crianças, pequenas em anos de vida e enormes em sofrimento. Meninos de alma mais negra que a pele. Olhos que viram demasiada coisa. Quem já teve uma AK 47 apontada ao peito por miúdos de olhos turvados por estupefacientes sabe do que estou a falar. “As pessoas do lado de cá não “lêem” a realidade de “lá”com a generosidade. Lêem-na apenas emocionalmente – e passa-lhes depressa o choque, o nojo ou a indignação.”, escreveu Pedro Rosa Mendes.

Desola-me a imagem de uma criança com uma arma na mão. Enraivece-me, na única potência mundial, ver miúdos irem para a escola de colete e mochila à prova de bala. Land of the free?
God bless America. Ela bem precisa.

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A member of the North Florida Survival Group shows a young girl how to operate an SKS rifle during a field training exercise in Old Town

 

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