Pano de Pente

pano de pente

A memória é isto: uma ampliação  máxima partindo de pormenores mínimos. Coisas pequenas: uma mala feita de pano de pente. Obra do vocabulário áspero e secreto dos tecelões manjacos e papeis. Evoca tempestades mais longas que o habitual. E as águas quentes, cordas grossas de chuva, que fazem do chão líquido tapete rubro. Odores de terra. Uma nesga de verde.E a saudade instalada. Comprei a minha mala de pano de pente, Rainha di djamba, em Bissau, na Amílcar Cabral. Dá densidade e cor à memória.

Menos conhecidos que as capulanas moçambicanas, os  panos de pente, Panu-di-Pinti, guineenses contam “estórias”, são documento histórico. Debruçam-se sobre a vida, a morte e os grandes sentimentos imortais. Casamento, riqueza, mortalha, domesticação de medos ancentrais.O pano faz parte das oferendas aos Irans, divindades tradicionais.

Com  motivos  inspirados pela natureza, pelos animais da terra e do mar, pelos  acontecimentos comunitários. Os  Ficial, tecelões, vão criando os modelos, construídos através de pauzinhos chamados “lixos” de onde nascem figuras geométricas, rostos, contornos e dizeres.

Na coreografia  dos fios de várias cores nasce um tecido mais leve ou mais grosso consoante o número destes fios. Estes tecidos magníficos devem o seu nome ao tear (pente).  Um pente é constituído por quatro varas de palmeira; duas varas de madeira, com o formato de uma serra; uma roldana, que permite o movimento das varas; o pedal e o pente; a lançadeira, com um formato semelhante a uma piroga de pequena dimensão e que permite lançar as linhas horizontais do pano, tendo no seu interior uma canela de linha e um fio de vassoura que permite o rolamento da linha.

pente

Cada motivo existente nos panos tem um nome e os nomes, em crioulo, têm sempre a ver com as gravuras constantes nesses tecidos. O pano que imita as malhas da pele das costas do crocodilo é chama-se de Kosta di lagartu, a imitação da pele da gibóia é Irã-cegu, a imagem de abelhinhas é Baguêra, panos imitando olhos de vaca são Udju di baka, panos com imagens do poilão, árvore de grande porte, considerada sagrada na Guiné-Bissau, tem o nome de Polôn, as letras do alfabeto inspiraram o Panu-letra. Beleza de limpar o pó à humanidade.

“O Latrus preto, o Latrus branco, o Pano-letra preto e branco, o Bandeira di padida, Dom Fafe, Baguêra, Estrela, Rainha di djamba, Formiguinha, Tartaruga, são dos mais vistosos, lanceados com cores bem vivas e também em tons cinza, preto e branco; usam-se no ombro ou envolto na cintura, por cima dos vestidos. São estes panos também usados como tapete sobre o qual a noiva caminha no dia do casamento.

O pano de banda branca, costurado com linhas brancas, é a primeira peça posta à noiva, depois do banho sagrado no dia da cerimónia de rianta (cerimónia do casamento tradicional). É também esse pano de banda usado como uma das primeiras peças de mortalha de uma mulher. O pano de banda branca unidas em kamatcha é usado nas várias cerimónias fúnebres, é vestido pelas filhas e netas da ou do defunto. É a peça usada pelas noivas manjacas e nas cerimónias de casamento tradicional por noivas de outras etnias.

O miada preta é usado como última peça da mortalha que se coloca por cima do corpo. Na ausência desse, o miada branca é usado em substituição. Hoje, pela sua beleza, miada é também usado como presente e para confeccionar casacos e outras peças de vestuário. O miada lanceado é usado como pano de luto pela etnia Mancanha. A mulher que está de luto traz este pano, dobrado ao tamanho de uma banda, atado na cintura ou por cima das ancas.

 Lankon, pano de dez e doze bandas, quando tecido apenas a duas cores sóbrias, principalmente a preto e branco, é a peça principal de mortalha nas etnias Papel e Manjaca, normalmente usado nos defuntos homens.

Lankon serve também de vestuário aos sacerdotes tradicionais e régulos (os que levam cores variadas e vivas na sua malha). Esta peça é também sinónimo de poder por ser muito cara. Nos funerais, o número de panos colocados no caixão chega a ser superior a cem. Os panos comprados ou encomendados são guardados na mala para, em ocasiões especiais, serem usados ou dados como presentes.

Nbânhála é o pano que o tecelão constrói com os restos de bandas de cada motivo tecido por ele – uma espécie de mostruário. Assemelha-se a um pano Nbânhála remendado com vários retalhos. É esta peça que, muitas vezes, mostra a quantidade de panos tecidos pela família. Normalmente é dado de presente a ou ao filho mais novo”

Artissal

PS- As fotografias são da fotógrafa Virginia Yunes e de um blog escolar guineense.

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2 thoughts on “Pano de Pente

  1. Muito obrigada, Helena. Que belo texto! Ficará para mim como memória de um tempo que me parece já ter sido noutra vida. Que estranha sensação. A actual passa-se entre Cadernos do bebé, como talvez tenha já percebido (nunca sei bem que informação chega a quem).
    De qualquer forma aqui fica: cadernodobebe.tumblr.com
    Obrigada, mais uma vez. Um grande abraço.

    Gostar

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