Três anos de blog ( e eu quase me esquecia)

Nas férias a medição do tempo diverge da habitual. Mede-se em pequenas doses e gradientes de poder ser feliz com pouco. Um cappucino, uma queijada, ler o jornal completo sentada na esplanada do Golden, de frente para o filme do passeio. Ou fechar os olhos e escutar apenas o murmurar do mar, sentindo o sol morno de Fevereiro acariciar a pele, num dos lugares preferidos o Clube Naval do Funchal. E abri-los para os fazer deslizar nesse livro extraordinário que é “O Retorno”, de Dulce Maria Cardoso. Há muito que o queria ler e arrependo-me de ter esperado tanto. Trata-se de uma obra dolorosa e comovente pela sua capacidade de nos fazer sentir a perda, o medo e que desmistifica a imagem que os portugueses de “cá” têm de si. É difícil para quem não foi retornado imaginar o que é perder tudo, chegar a um país estranho, a “metrópole”, obrigado a recebe-los, mas detestando-os, não os compreendendo. Não me lembro onde li, mas recordo-me de a propósito deste romance alguém ter contado que na sua escola primária quando a professora chamava a contínua para procurar piolhos nos alunos dizia “primeiro os retornados, depois os das barracas, a seguir os dos bairros sociais”(os únicos dispensados deste processo humilhante eram os filhos de licenciados). Lê-se e saboreia-se como uma fruta rara. Uma anona entre morangos vistosos mas sem sabor.

De mansinho acabaram os dias sem agenda, nem horas, e completou-se (no sábado) mais um ano deste blog. Já são três. Obrigada pela generosidade de todos os que por aqui passam e passaram.

“No IARN (Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais) estavam retornados de todos os cantos do império, o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber”.

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15 thoughts on “Três anos de blog ( e eu quase me esquecia)

  1. Gostei muito desse livro, li-o neste Verão, logo a seguir ao “Caderno de memorias coloniais” de Isabela Figueiredo. Nasci em Moçambique, sou filha de moçambicanos e neta de portugueses – os verdadeiros retornados – e estes livros tocaram-me profundamente, agora falta ir a Moçambique e revisitar todos os locais que preenchem o meu imaginario ha 38 anos.

    Parabéns pelo blogue !

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