Wir sind Papst

Não sei muito bem por onde começar. Da minha varanda de férias a notícia parece-me irreal. Confesso que, quando o Cardeal Joseph Ratzinger foi nomeado Papa, em Abril de 2005, se eu tivesse direito a voto teria escolhido um outro Cardeal alemão, o “liberal” Karl Lehmann, de Mainz.

Lembro-me que o conclave que elegeu Joseph Ratzinger foi dos mais rápidos. A celeridade da escolha surpreendeu (-me) e contradisse os prognósticos de muitos sectores – meios eclesiásticos e comunicação social incluídos – de que existia resistência à eleição do Cardeal, “conservador”, germânico. De acordo com a vaticanista Aura Miguel “aconteceu o contrário: os cardeais deram ao mundo um sinal de união ao elegerem tão depressa este Papa”. E deram-lhe mais votos do que os que elegeram Karol Wojtyla.

A XX Jornada Mundial da Juventude, em Colónia, o primeiro grande teste do Papa pós-João Paulo II, foi para mim uma espécie de epifania. O ” Wir sind Papst” ( Nós somos Papa), decretado pelo Bild, inflamou-me. O pensador, o teólogo que senta ao piano e toca Mozart, o homem afável e delicado no contacto, conquistou-me , reconciliou-me com a minha fé.

Quem viveu, como eu, aqueles dias privilegiados em Colónia, onde meio milhão de jovens de todo mundo se juntaram para celebrar Cristo e dar as boas vindas ao ” Papa polémico”, não pode aceitar que se escreva que Bento XVI não mobiliza. Meio milhão de jovens não será “mobilização”? Na altura até a profana revista Bravo, o órgão central da cultura púbere germânica, publicou um poster do Papa em formato XXL, 80 por 53 centímetros.

Outra das “lacunas” apontadas à imagem de Bento XVI é que não vende medalhinhas, estatuetas made in China, tercinhos kitsch e quejandos. Porém escreve, e bem. Os seus livros tornaram-se best-sellers. Aqui na Alemanha destronaram Harry Potter e encontram-se no top de muitas livrarias. Nas aulas de religião católica das escolas secundárias as suas enciclícas são debatidas por adolescentes. Pergunto-me quantos jornalistas “críticos” por esse mundo fora terão lido os seus livros?

Ser católico com Ratzinger e nos tempos que correm é díficil ? Sim, é. Porque ele é menos ritual, menos carisma e mais espiritualidade. É díficil porque os media em geral exageraram as sucessivas polémicas, empolaram-nas, por ignorância, nalguns casos por manifesta má fé. A senha persecutória de alguns asfixia(-me). O lacismo radical é novo ópio do povo. É díficil e doloroso porque a Igreja, e a Igreja alemã em particular, passa por uma das crises mais graves da sua história recente. Mas, só um catolicismo feito de exigência, feito contra aquilo que é considerado bom, óbvio e lógico pelo “espírito do mundo” , pode ultrapassar a crise, separar o trigo do joio. Se alguns se perguntam ” Wir sind Papst” ? respondo Ich bin.

Notas finais. A homília de Joseph Ratzinger antes de ser eleito Papa é uma chave de leitura fundamental para perceber o seu pontificado. Foi Ratzinger que, na qualidade de decano do colégio cardinalício, antes de entrarem para o conclave que o viria a eleger, presidiu à missa Pro Eligendo Romano Pontifici. E ficaram famosas as palavras que proferiu, quer sobre aquilo a que chamou «ditadura do relativismo», quer ao denunciar o risco de permanecermos com uma fé infantil, «em estado de menoridade». Citando a carta de São Paulo aos Efésios – «como crianças, levadas ao sabor de todos os ventos de doutrina, pela malignidade dos homens e astúcia com que induzem ao erro» – disse Ratzinger : Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decénios, quantas correntes ideológicas, quantas modas de pensar… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi muitas vezes agitada por estas ondas, lançada de um extremo para o outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem, ao colectivismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante.» E o futuro Papa prosseguiu: «Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é, com frequência, rotulado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar de um lado para o outro, ao sabor de todos os ventos de doutrina, surge como a única postura adequada aos tempos de hoje. Vai-se, assim, constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e os seus desejos.»

A renúncia de Bento XVI é uma enorme lição, não apenas de desapego ao poder, mas sobretudo de lucidez e humanidade ao tematizar a fragilidade própria da idade e da condição humana. Fragilidade tantas vezes esquecida por uma sociedade obcecada pela juventude, pelo mais belo, mais forte. Ser-se verdadeiramente livre é isto.

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2 thoughts on “Wir sind Papst

  1. Helena, obrigada pela coragem de escreveres aberta e genuinamente sobre um tema tão controverso. É tão fácil criticar nos dias de hoje, e pegar simplesmente no que se culpa e cita e se acha escondido, afinal é do negativo que a maioria dos media gosta. Acho particularmente irónico duas coisas: que se cubra tal assunto sob uma perspectiva apenas; e que se conheça melhor – e respeite mais – outras religiões que nos estão historicamente mais distantes, só porque hoje entram na nossa vida sob a forma de terrorismo.

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  2. Concordo plenamente com o ultimo parágrafo. E sim, é difícil dizer que se acredita nestes tempos. Eu não gosto de religião, rituais, nem de padres da forma como os conheço, mas sim de fé/divino.Espiritualidade. E esta e os afetos têm de estar acima das bandeiras. Que tudo condicionam…

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