O El Dorado não é aqui

Numa crónica públicada em Julho de 1995 Clara Ferreira Alves referia a “grande doação dos portugueses ao mundo nas últimas três décadas”: a mulher a dias. Tropecei nestas linhas quando pesquisava sobre a emigração, fenómeno que voltou à agenda mediática por força da crise.

A diáspora de hoje já não é feita (apenas) de  mulheres que fazem limpezas em série e de mão de obra barata não revindicativa que abalou de mala de cartão, fugindo da pobreza das aldeias para miséria dos bidonvilles ou das favelas de Caracas e conseguindo, com escrúpulo nas contas, cansaço e sacrifício, construir a vida digna que Portugal lhes negou. Não sei quanto Portugal deve às remessas desses emigrantes. Sei que nunca lhes pagou.

A partida sofre hoje mutações geográficas, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro, repete-se na Alemanha, no Reino Unido e na França, mas talvez a maior das mutações seja o facto de partir uma geração com formação superior. Desde a década de 90 que Portugal “exporta” um quinto dos seus quadros com formação universitária. O que o coloca ao nível de países como  o Afeganistão, o Togo, o Malawi e a República Dominicana.

Há cerca de um ano, um artigo publicado no jornal  Diário Económico e uma reportagem da TVI fizeram com que, de um momento para o outro, uma pequena cidade no sul da Alemanha passasse a ser o foco das esperanças dos portugueses.

No artigo do jornal, dizia-se que a cidade alemã, Schwäbisch Hall, precisava desesperadamente de trabalhadores qualificados e que os empregos “corriam atrás das pessoas”. Mais de 15 mil pessoas enviaram uma candidatura espontânea. Um ano depois, cerca de 40 portugueses vivem em Schwäbisch Hall. Muitos vieram a descobrir que a cidade não era o El Dorado que tinham imaginado.

Vale muito a pena ler a reportagem de Guilherme Correia da Silva sobre a miragem do El Dorado e os mitos da emigração para a Alemanha.


6 thoughts on “O El Dorado não é aqui

  1. Já estou a ver de onde o Bastonário das Ordem dos Advogados foi buscar a tirada das exportações do Brasil.

    Ainda assim a maioria da emigração hoje em dia é faxineiras, taxistas, pedreiros, que (apenas) são notícia quando morrem nas estradas ou no local de trabalho. É sempre mais fácil fazer reportagens no nas partidas do Aeroporto.

    Sobre a dureza da emigração, neste caso na Holanda, deixo-lhe dois textos do escritor José Rentes de Carvalho.
    http://tempocontado.blogspot.com/2013/01/o-mesmo-tempo-o-tempo-de-sempre.html
    http://tempocontado.blogspot.com/2013/01/avos-e-netos.html

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  2. “De um ponto de vista social, a emigração portuguesa constitui a manifestação de uma forma de escravatura que subsiste ainda hoje. De um ponto de vista ético, a emigração portuguesa significa a negação constante do direito mais elementar da pessoa: o direito à vida no próprio país. De um ponto de vista político, a emigração portuguesa supõe a renúncia à revolta”.
    in Portugal, a flor e a foice – Novembro de 1975 – inédito em Português.

    Obrigada Nuno. É impressionante a actualidade destas palavras.

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    1. Eu acho essas palavras completamente parvas. Escravatura? Eu fui emigrante na Alemanha e não me senti nada escravo, pelo contrário, recebi um bom salário. A própria Helena é emigrante e, creio eu, não é nenhuma escrava.
      É claro que as pessoas têm “o direito à vida no seu próprio país”, mas esse direito não inclui o direito a ter um trabalho bem pago e que satisfaça as expetativas da pessoa. Tal direito não existe nem nunca existiu.

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      1. Luís há casos e casos. Eu optei pela Alemanha de forma consciente e com segurança material. Conheço centenas de outros casos de “escravatura” na comunidade portuguesa. Não me refiro à época actual, embora na construção civil ainda haja hoje em dia episódios pontuais.

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  3. Pois, não é o El Dorado, mas a verdade é que os que ficaram lá estão satisfeitos e só sentem a falta do mar e do peixe grelhado; de resto, estão bem e querem ficar.
    Também se vê que querem aprender alemão e integrar-se, uma postura radicalmente diferente da de muitos outros imigrantes na Alemanha, por exemplo muitos turcos, cujas mulheres jamais aprendem a língua.
    Em suma, vê-se que as reportagens tiveram sucesso: empresas alemãs conseguiram colmatar a falta de trabalhadores e portugueses capazes e ambiciosos conseguiram trabalho e estão felizes da vida.

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    1. Os que ficaram querem integrar-se e fazem lindamente em aprender a língua. Agora as reportagens pecaram ambas por excesso. A Alemanha é um país fantástico para se viver, mas não é de todo fácil, nem os ordenados ( elevados quando comparados com os portugueses) atingem seis, sete, oito mil euros ( com raras excepções claro).

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