One Billion Rising

Mulher

No palco da noite de um lugar longínquo nasci. Entre sedas de silêncio. Errado, o meu género.

 Menina minha mãe, analfabeta, de pé no chão. Cansada de um cansaço muito antigo, não recebeu flores. Pariu. Morreu. Sem lhe descobrir a cor dos olhos. Ou o desenhar de um afago.

 Guardei a memória da fome. De comer os restos dos meus irmãos.

Não conheci um quadro de giz, as linhas de um caderno, nem o desenhar do meu nome. Para quê? Errado, o meu género.

Arei poemas doridos na terra, vergada do romper da aurora ao desabafar da escuridão. Queimei as mãos no lume. Mastiguei humilhações. Com medo da fêmea em mim, abriram-me as pernas, violentaram-me o corpo. Errado, o meu género.

 O homem que é o meu, mas que não escolhi, esgazeado, sem remorso retalha-me na pele a submissão. É meu o sangue vertido no chão. Estoicamente resisto a todas as torturas. Morro em vida. Até que a morte num sopro libertador me colha. Errado, o meu género.

 Não se nasce mulher impunemente.

 – Uma em cada três mulheres no planeta será violada ou vítima de violência  sexual durante a sua  vida. Dia 14 de Fevereiro é o dia do tsunami feminista “One Billion Rising”. Esta campanha lançada por Eve Ensler, autora de “Monólogos da Vagina”, terá lugar em 190 países em simultâneo  e visa sensibilizar para a questão da violência de género. O objectivo é pôr mil milhões de mulheres (e porque não de homens) a levantar-se e a dizer “enough is enough”.

E você vai ficar sentada/o?

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