Tratado do Eliseu: 50 anos de «je t’aime, moi non plus»

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Desde o final da Segunda Guerra que nenhuma Nação europeia tem sido tão pragmática na condução da política externa e tão relutante em comprometer-se no estrangeiro, ou a empreender acordos de grande alcance como a Alemanha. É por isso extraordinário o Tratado de mútua amizade assinado entre Bona e Paris, assinado pelo chanceler alemão, Konrad Adenauer, e pelo presidente francês, Charles de Gaulle, no Palácio do Eliseu em Paris, a 22 de janeiro de 1963.

De Gaulle não chegou à devoção pela amizade franco-alemã num súbito ataque de sentimentalismo. Pelo contrário, como escreve Henry Kissinger, “desde o tempo de Richelieu que a política francesa sempre fora dirigida com o objectivo de manter o ominoso vizinho alemão dividido ou fraco, de preferência ambos. No século XIX a França compreendeu que, por si não tinha poder  suficiente para conter a Alemanha; em consequência disso firmou alianças com a Grã-Bretanha, a Rússia e uma série de pequenos países”. A duas guerras mundiais vieram  demonstrar que Londres e Paris combinadas não tinham sido suficientemente fortes para derrotar Berlim. Isso levou de Gaulle a abandonar a tradicional relação de hostilidade com a Alemanha e a confiar o futuro do seu país à amizade om o inimigo hereditário.

Aproveitando a crise de Berlim e temendo o fantasma de uma aliança germano-soviética, a França posicionou-se como defensora da identidade europeia e mostrou a sua sensibilidade quanto às preocupações alemãs. O cálculo era frio, e não uma grande paixão: Paris reconheceria e apoiaria a reunificação da Alemanha ( algo que na época era considerado tão longuínquo como uma viagema a Marte) e em troca Bona reconheceria Paris como líder político da Europa.

A substância do Tratado do Eliseu, de apenas seis páginas, não era vísivel, na verdade tratava-se de um recipiente vazio, que viria ser preenchido com tudo o que os líderes alemães e francesses nos anos vindouros desejassem.  Talvez o seu mais importante parágrafo seja o Artigo 2° onde se pode ler,”os dois governos consultar-se-ão um ao outro, antes de qualquer decisão, sobre todas as questões importantes de política externa, e em primeio lugar, sobre questões de interesse comum, tendo em vista chegar, tanto quanto possível, a uma posição similar”.

Durante o processo de ratificação, o Bundestag acrescentou-lhe um preâmbulo, fixando o vínculo com o parceiro transatlântico, os Estados Unidos, e o objectivo da reunificação alemã. Charles de Gaulle ficou irritado por considerar abalada a arquitetura do Tratado.

Críticos na altura afirmavam que tratados raramente eram duradouros. Alguns comparavam o Tratado do Eliseu às rosas, que murcham passado algum tempo tempo. Konrad Adenauer, um apaixonado pelas rosas ( quem ainda hoje visite a residência privada de Adenauer em Bad Honnef, perto de Bona, pode admirar as roseiras do chanceler, e existe mesmo uma rosa com o seu nome), não hesitou em responder. “Mas a rosa, e disso eu realmente percebo, é a planta mais resistente que existe.”

Seria a componente humana que viria a encher o Tratado. A admiração de Konrad Adenauer por Charles de Gaulle era genuína e profunda, assim como era profunda a satisfação do General em ser admirado por um homem da envergadura de Adenauer.  As lágrimas de Helmut Kohl no funeral de François Mitterrand foram sinceras e as relações  entre ambos marcadas pela confiança e franqueza.

É verdade  não se pode falar de amizade entre Georges Pompidou e Willy Brandt. No entanto o presidente francês apoiou firmemente a Ostpolitik do chanceler alemao. Helmut Schmidt e Valéry Giscard d’Estaing trabalham notavelmente em conjunto, mas a amizade só se desenvolveu depois de ambos terem abandonado o poder. Chirac e Schröder não se suportavam. Depois de Merkosy, Angela Merkel e François Hollande ainda tacteam caminho. Nas últimas cinco décadas a arquitectura mundial alterou-se dramaticamente, a Europa não é mais a de Mitterrand e Kohl. A Alemanha é a potência europeia incontornável, sem ela e contra ela nada se faz . O que torna mais do que nunca este Tratado fulcral.  A República de Berlim não quer fazer política externa “à sua maneira”. Aliás Wolfgang Schäuble, ministro alemão das Finanças (e arquitecto da reunificação)  em declarações publicadas no Handelsblatt, afirma que a Alemanha “não quer ser uma grande potência em política externa”. “Como o poderia ser, depois de Hitler e Auschwitz? A história deixa sequelas por muito tempo(…)”.

Mesmo sem ser uma história de amor, mesmo com limitações óbvias, a amizade franco-alemã foi (é) o garante de cinquenta anos de paz na Europa. Isso é o essencial. Convém lembrá-lo.

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