E só Deus sabe…

Para esta consternada e triste católica, nunca a Igreja pareceu estar tão longe de reconhecer a realidade como se mostrou  perante um episódio monstruoso que se passou em Colónia. Faço uma pequena síntese: uma jovem de vinte e cinco anos foi drogada numa discoteca,  e uma vez inconsciente, violada. A médica que a atendeu no banco de urgência solicitou que fosse feito o “kit violação” (recolha de provas da violação). Apesar da violação ser evidente duas clínicas católicas de Colónia recusaram-se a fazê-lo, com o argumento que se ficasse provada a violação “a mulher poderia requerer a pílula do dia seguinte” e que “clínicas católicas não praticam abortos”. Como? Imaginem o horror daquela mulher, molhada de lágrimas, amachucada, torturada por dentro, ser rejeitada, humilhada por quem lhe devia prestar apoio. Ponham-se no seu lugar.

O fulcral da mensagem de Cristo não é estar junto dos desvalidos?Dos que precisam de ajuda? Não é essa a parábola do Bom Samaritano? Pesa a doutrina mais do que a compaixão ou a ética?

Mais obsceno que um aborto – e sou por príncipio contra o aborto,com excepção dos casos de violação e de risco da vida da mãe, assim como respeito as objecções de consciência dos médicos – é a Igreja (alguma Igreja) continuar a ver a mulher como uma “galdéria”, uma “pecadora”, que faz finca pé no lugar comum: a mulher como tentação e o homem como ser tentado.

Miguel Torga escreveu “ há uma coisa que eu nunca poderei perdoar aos políticos: é deixarem sistematicamente sem argumentos a minha esperança”. Há dias em que sinto o mesmo em relação à minha Igreja.

Anúncios

6 thoughts on “E só Deus sabe…

  1. O linque não funciona.
    Isto só mostra que é essencial a intervenção do Estado no mercado, neste caso, da saúde, por forma a garantir que os direitos dos cidadãos, neste caso o direito da senhora a fazer o teste em causa, sejam assegurados. Ai do país onde só haja hospitais católicos!
    O argumento das clínicas parece-se supremamente estranho. Não fazem o teste porque se fizessem poderia acontecer algo mais. Isto é ridículo. Mesmo supondo que a senhora foi violada, nada garante que ela iria tomar uma pílula do dia seguinte, muito menos fazer um aborto – a maior parte das relações sexuais, e das violações portanto, ocorre em dias inférteis!

    Gostar

    1. Obrigada Luís por ter indicado que o link não funcionava. Na minha perspectiva o problema não são os hospitais católicos, onde há excelente pessoal médico, o problema neste caso, e o que o torna mais grave foi os médicos terem medo de perder o emprego caso incorressem em contradição com normas ambíguas que reflectem o fundamentalismo moral da Igreja face à mulher. Como católica doí-me ver que a Igreja continua a ter um enorme problema como o corpo e a consciência da Mulher.

      Gostar

      1. Helena,
        no meu comentário eu não disse que haver hospitais católicos seja um problema. O problema é se só houver hospitais católicos, isto é, se não houver outros alternativos. Porque nesse caso os direitos das pessoas – neste caso, o direito da senhora a fazer um teste de violação – podem ser atropelados. O atropelamento tanto pode ocorrer por normas explícitas como (neste caso) por normas ambíguas.
        O que isto mostra, como eu disse, é que o Estado tem que se asseguar que haja hospitais dispostos a cumprir as leis do Estado, a pô-las acima das leis católicas (ou outras).

        Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s