Aerograma

aerograma

Não sei se se lembram dos “bate-estradas” ou “corta-capins”, os aerogramas enviados aos e pelos soldados portugueses no Ultramar? Pedaços de papel que aquietavam ou desassossegavam corações. Chegavam sempre atrasados à vida, embora eternizassem momentos. Que não dariam eles para trazer palavras com olhos? Iluminando poentes cor de sangue. Iludindo o medo, as emboscadas, a solidão debaixo das folhas dos cajueiros. Tornando mais curtos os dias que faltavam a o final da comissão.

 Estima-se que em treze anos de guerra colonial 200 milhões de aerogramas tenham sido recebidos e enviados. Neles se testemunha o catálogo de horrores da guerra colonial, os silêncios e as lágrimas engolidas. Mas também os gritos de amor e um agarrar desesperado à bóia uma réstia de normalidade (seja a matança do porco ou a esperança que o Sporting vença o Benfica).

 O Centro de Linguística da Universidade de Lisboa catalogou parte desta correspondência esquecida. Pesquisando, entre muitos aerogramas, embaciaram-se-me os olhos com um enviado de Ambrizete, Angola, para Ponta Delgada. Escrito por um filho para uma mãe. É a transcrição de um poema da angolana Alda Lara,”Toada da Menina Bela”, acompanhado da seguinte anotação: “como em Ambrizete não encontrei cartões próprios para este dia, resolvi transcrever o poema e enviá-lo com um grande beijo para o dia de hoje. Para menina bela (e sem “birras”) que é a minha mãe”.

Notas à margem: Como eu gostava de ter os aerogramas trocados entre os meus pais.

A poesia da Alda Lara lembra-me a minha mãe-negra guineense, de quem só tenho uma fotografia ( onde estou ao colo dela) e as palavras sussurradas na despedida: “quem vai embalar a menina?”.


6 thoughts on “Aerograma

  1. É verdade, comoventes palavras, lembro-me bem desses aerogramas, de os escrever e receber dos meus dois tios ambos no Ultramar…lembro-me de utilizar todos os espaços nas ” abinhas ” e fazer imensos desenhos que eles retribuiam, com desenhos dos animais africamos que eu achava muita graça, enfim, só a parte bonita dessa guerra idiota…

    Gostar

  2. O meu padrinho, que vive em Vendas Novas, esteve na guerra colonial. Enviou, pois, muitos aerogramas à família. A minha mãe trouxe alguns para casa dela (no norte), onde os descobri já em adulta. Utilizei-os como forma de warm-up em aulas que abordavam o tema da correspondência. São um testemunho impressionante da história coletiva e política e também da individual e familiar.
    Obrigada por nos lembrar disto.*

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s