O sonho europeu

inmigrantese

Inóspita, a travessia é um longo purgatório. Em tácita desavença com o paraíso. E em desleal competição com o inferno. Ninguém pode avaliar o desespero, a devastação que leva alguém a entrar numa frágil patera e a enfrentar ondas gigantescas. Sem saber nadar. Por vezes amarrado, mãos e pés, à embarcação. Depois de atravessar a imensidão africana, de viajar pelo deserto, de camião, a pé. Iludindo guardas fronteiriços ou corrompendo-os. Arriscando de fronteira, em fronteira  ser deportado para a anterior. Na história da nova escravatura que chega às praias europeias, da qual estamos tão perto e simultaneamente demasiado longe, há poucos inocentes.

 Na semana passada a polícia espanhola desarticulou uma rede – 16 nigerianos, um ugandês – que traficava mulheres nigerianas para a prostituição em diversas cidades espanholas. Nada de novo dirão os cínicos. Uma nota de rodapé num noticiário televisivo. Adiante com as reportagens sobre a crise (europeia), a fome (europeia), o desespero(europeu) e as férias de luxo de uns, poucos privilegiados, nos paraísos africanos para endinheirados.

 Sabe-se que mal põem um pé na Europa a maioria das clandestinas africanas é forçada a prostituir-se, é vítima de abuso sexual ou de perseguição. Muitas assinam um “contrato” com as máfias locais selado com rituais vudu, o que o torna num vínculo que poucas mulheres terão a audácia de romper. É público muitas chegam grávidas e que a gravidez é um expediente para ficar na Europa. Não constitui novidade o facto dos bebés serem usados para chantagear as mães ou que

 acabam por ser “adoptados” em circunstâncias dúbias.

 A história dos que chegam às costas da Europa é a de uma ilusão. “O seu sentido somos nós. O sonho europeu, que à própria Europa já escapou”, como escreve Paulo Moura, num livro que se me algemou ao pensamento. Chama-se “Passaporte para o Céu” e retrata os destinos, para além das notícias e das estatísticas, daqueles que esperam à porta da Europa para nela entrarem ou que em Espanha e em Portugal procuram sobreviver, agarrando-se como náufragos aos restos da sua ilusão. O livro foi publicado em 2006, comprei-o em Maputo, há uns anos, por uns ridículos dois euros. A história (as estórias) que conta não tem preço, nem ponto final. Como a consciência.

 “Um dos irmãos de Aimee tem-lhe tele­fon­ado a pedir din­heiro. O pai está pior, é pre­ciso com­prar medica­men­tos. Ela tenta ocul­tar da tia alguns clientes, sone­gando alguns euros que enviaria para casa, mas é impos­sível. A nige­ri­ana quar­en­tona e anafada espera-a num dos pequenos bares perto da pen­são e é pre­ciso ir prestar con­tas após cada serviço. E quando ela viaja não lhe fal­tam nige­ri­anos como Moses, aos sola­van­cos entre a con­strução civil e o trá­fico de droga, para lhe vigiar as meni­nas. É impos­sível escapar. A solução é fazer mais clientes, estar atraente e atenta. Não deixar escapar nen­huma presa, como este homem que surge na esquina da Avenida Almi­rante Reis, cruza a praça em diag­o­nal, sem voltar a cabeça, lesto e inse­guro, como se tivesse sido ati­rado para ali, como um pato bravo lançado ao ar num con­curso de caça.

Aimee corre para ele, dá-lhe o braço. Quase não é pre­ciso falar. Dirigem-se para a pen­são. O homem parece estar hip­no­ti­zado. Atrav­es­sam a avenida, seguem por uma rampa íngreme, depois por um beco estre­ito, sem saída. É aqui. “Res­i­den­cial Escon­did­inha”, diz na porta. Entram. É difí­cil não tropeçar na pas­sadeira rota e solta das escadas de madeira. Uma mul­her atrás de um bal­cão entrega a chave do quarto 102. “Quero o 104. Não está livre?” Com um sor­riso, a mul­her estende a nova chave a Aimee, aceita os cinco euros do aluguer de meia hora e volta para o sofá onde estava, encaix­ado entre a tele­visão, que emite o con­curso “Um Con­tra Todos” com José Car­los Malato, e um altar com uma está­tua de Cristo e outra da Virgem de Fátima, rodeadas por cen­te­nas de san­tinhos de papel e fotografias do papa.

O quarto, exíguo, tem uma cama, um lavatório e um bidé. Na parede, duas repro­duções de fotografias da Índia. Aimee recebe do homem os 15 euros. Despe-lhe as calças, depois despe as suas. Man­tém a blusa. Retira da bolsa um preser­v­a­tivo, que coloca no homem. Per­gunta: “Chupa?” O homem acena que sim e deita-se na cama. Aimee faz fela­tio ao homem durante dez min­u­tos. Depois deita-se e abre as per­nas. Lubrifica-se com a sua própria saliva. E fecha os olhos.

“É só o meu corpo. Não ofer­eço a alma”, explica ela. “Não tenho qual­quer exci­tação, nunca. Só quando estou soz­inha, no meu quarto. Tenho um urso de pelú­cia, agarro-me a ele assim, e tenho prazer. Depois adormeço”.

Aimee sai, acom­pan­hada pelo homem, que não diz uma palavra. Desce com ele a rua íngreme, de braço dado, despede-se à porta do bar onde a “tia” a espera, à porta. “Acabo de rece­ber um tele­fonema…” diz a nige­ri­ana, ainda com o telemóvel na mão. “Aimee, o teu pai morreu”.

Paulo Moura, in Passaporte para o Céu

Advertisements

2 thoughts on “O sonho europeu

  1. Aqui está um tema que me dilacera, desde sempre. Ninguém sabe o desespero, mesmo. Já vi programas sobre esta tocante realidade e deixaram-me de lágrimas nos olhos. Falo disso nas minhas aulas, sempre que é oportuno, e tento trabalhar a insensibilidade e a intolerância que vejo ainda surgir. Como desejaria que fosse diferente, em tudo diferente. E, sobretudo, que não fôssemos indiferentes…

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s