Behind the Beautiful Forevers

BehindBeautifulForevers

Dois mil metros quadrados. Três mil pessoas. 335 barracas de madeira e lixo, bambu e plástico. Um muro de betão para ocultar qualquer coisa que não devia estar ali. Poucos palmos de terra para viver, comer, defecar e morrer. Isto é Annawadi, um dos slums de Mumbai, no que começou por ser um mangal ao lado da estrada do aeroporto. Velha e nova Índia, frente a frente. O slum, construído por pessoas que vieram para Mumbai, do Uttar Pradesh, acossados pela fome ou falta de trabalho, é o cenário de “Behind the Beautiful Forevers” de Katherine Boo, para mim um dos melhores livros em língua inglesa publicados em 2012.

 Escrito de forma brilhante, com base numa investigação feita ao longo de três anos, não é um “feel-good book”, mas uma pintura impressionista da vida nos slums. Das ambições, preocupações, sonhos, resiliência  e desistências dos seus habitantes. Um mundo de sonhos de revolta ou de grandeza, camuflado pelo conformismo e a resignação, amaciado pelo humor e a coragem.Dentro de Annawadi fervilha actividade. Embora quase ninguém tenha emprego fixo, todos trabalham. E lutam por uma oportunidade.

A  jornalista, vencedora de um Pulitzer, transporta-nos a um dos mundos escondidos do século XXI, construindo a narrativa, em torno de três famílias. Os Husains, família”próspera”, muçulmana, de apanhadores de lixo, são os personagens centrais (verídicos) do livro. Abdul é a estrela adolescente da família, trabalhador e eficiente, o que suscita a inveja dos menos afortunados no negócio de reciclagem de lixo e da vizinha Fátima, uma prostituta coxa, célebre pelo seu apetite sexual, que acabará por se imolar pelo fogo. A terceira família, cujo destino se entrelaça com o as outras duas, é a de Asha. Uma militante do Shiv Sena, partido chauvinista de extrema-direita: Asha ambiciona ser a “Slumlord” e que a sua filha Manju, se torne numa “pessoa de primeira classe”e deixe Annawadi.

Quando Fátima se imola pelo fogo num absurdo acto de vingança para inculpar os vizinhos. Abdul e a família vêem-se a braços com o kafkiano sistema de justiça da “maior democracia do mundo”. O medo atravessa os dias, entranha-se. O grau de corrupção surpreende até o mais empedernido dos cínicos.

Este livro ajuda a compreender a Índia moderna e as suas enormes injustiças e contradições. Mumbai é uma espécie de “ground zero”. De ponto de impacto. Onde a diferença se demonstra como em nenhum outro lugar na Índia. Entre os salões luxuosos do Taj Mahal – onde lhe abrem a porta da casa de banho, lhe põem a água a correr, lhe colocam sabão nas mãos e lhas enxugam ( não ainda protestar, será mal interpretado) – e o exército de destituídos.  O real ultrapassa sempre a ficção.

 Nota final: A inconcebível violação colectiva em Nova Deli mostra o verdadeiro rosto da Índia.

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