Feliz Natal!

escultura-natividade

Tive o privilégio de crescer a acreditar na bondade, na nobreza humana. Herdei um mapa do belo, dos territórios familiares do afecto e da pertença. O cheiro do pão quente ao romper da manhã, o pão-de-ló caseiro, o reflexo da lua nos carris do eléctrico, a interpelação diária do Tejo, o céu de Lisboa, azul a dissolver-se nos olhos, o sorriso de embalar da minha mãe que enxotava papões, os amigos e a longa distracção das conversas, a missa ao domingo. A vida passa quase sem darmos por ela. E a felicidade consiste na graça de travar o tempo, de encerrar na concha da mão as memórias, as pessoas de quem gostamos.

 É nesse mapa que me refugio quando a luz emagrece e entro no mundo de chumbo dos que nasceram do lado errado da vida. Entre eles e mim, entre eles e nós, existe apenas um acaso geográfico, separam-nos milímetros, mas são maiores do que quilómetros.

Hoje, com a família reunida, num ruidoso serão, à volta da mesa – os pais vindos de Portugal, a irmã dos Estados Unidos – sublinho contrastes, como numa câmara escura. Dei por mim a pensar em duas meninas de que já vos falei aqui: a Guta, a “plastiqueira”de Maputo que sonha ser professora e a Clemência, uma menina de Bissau que me fez sentir chegada a casa. As histórias de vida destas meninas não são prazenteiras, é difícil olhá-las de muito perto, com enquadramento.

Se tivesse de escrever um epílogo das minhas viagens, diria que me ensinaram a enfrentar a imperfeição e, olhando-a nos olhos, a perdoar. E ensinaram-me a olhar a vida com encantamento. E, sobretudo, a nunca baixar os braços em defesa dos mais elementares direitos humanos: brincar, aprender a ler, ter que comer, a ter dignidade.

 Olho pela janela a noite negra. A casa posta em silêncio. Faço uma viagem sem distância e rascunho um abraço a todo os que gosto: os amigos de infância de quem a vida nos separou as rotas, cuja amizade não mudou de sítio (muitos reencontrei-os nessa maravilha que é o Facebook), a família, os amigos da faculdade e os que, por esse mundo fora, se foram inscreveram na lista de afectos. A amizade é como um jogo de Lego, com múltiplas possibilidades, em permanente construção.*

Agradeço a Deus a graça imensa de ter colocado na minha vida tantas pessoas generosas, talentosas, pacientes, inteligentes, que enchem de luz os locais por onde passam e que me ajudam a alisar as arestas da vida. São elas o meu melhor presente de Natal.

Desejo-vos a todos um Santo e Sereno Natal!

* Nesse jogo inscrevem-se muitos dos leitores que “conheci” através do blog e de quem aprendi a gostar.

Advertisements

8 thoughts on “Feliz Natal!

  1. Querida Helena,texto lindo.
    Real. Em que nos revemos em tantos momentos….
    Um beijinho de gratidão pelo que por mim fez.
    Santo Natal.

    Gostar

  2. Um Natal cheio de afectos (presentes e ausentes) é muito mais do que nos atrevemos a desejar. Um texto bonito, mas isso já era previsível, uma vez que escrito por alguém que traduz na sua escrita, uma visão real e ao mesmo tempo sensível dos tempos (passados e presentes).
    Visto que o Natal já lá vai, que seja um Ano novo e bom para a Humanidade, e para si claro, que o merece!

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s