Anjos

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Correm as horas. Vorazes. Dizemos que não temos tempo, quando nunca fomos tão livres para escolher o que fazer com ele. Vivemos num palco de extraordinárias expectativas, inatingíveis. Quantas vidas vivemos por procuração? Ou quanto medo temos de ser sentimentais, num mundo asséptico de sentimentos?

 Mas há, na era do individualismo e da indiferença quem nos devolva candura, quem nos encha o firmamento de pontos de luz, quem se recusa a ver no sofrimento uma abstracção e age.

Hoje chegaram-me duas histórias reais. A de um jovem polícia nova-iorquino que ao ver um sem-abrigo sem botas, entrou numa loja, comprou um par de meias grossas e umas botas. Um gesto sem preço, bem mais valioso que os 75 dólares que gastou. “Eu tinha dois pares de meias e ainda tinha os pés frios”. Ser-se sem abrigo nos Estados Unidos é uma abominação. É quase uma condenação. À solidão, à doença, à miséria e à injustiça. Um sem-abrigo é invisível aos olhos insensíveis da sociedade. O gesto do polícia foi registado por telemóvel e comoveu milhões de americanos. Às vezes a solidariedade precisa de um abanão.

A segunda história aconteceu aqui na Alemanha, sobriamente, sem holofotes. Duas mulheres fizeram muitos quilómetros de estrada para visitar um menino angolano de onze anos – vítima de uma mina anti-pessoal e que irá ser operado num hospital da antiga RDA – e para ler à pobre criança apavorada histórias infantis em português. Um verdadeiro conto de Natal.

Estes anjos, e felizmente ainda há tantos, não precisam do meu agradecimento, mas faço-o “em nome dos que dormem ao relento/Numa cama de chuva com lençóis de vento/O sono da miséria, terrível e profundo”. O Natal? São eles. O eu pelo outro.

PS – Já agora deixo aqui um apelo:

“Há crianças doentes em Berlim, sozinhas num quarto de hospital, que só precisam de quem fale português com elas – ajude-nos a ajudá-las!

Em Berlim e arredores há várias crianças angolanas internadas em hospitais para tratamentos muitas vezes demorados, e que não falam alemão nem têm nenhum contacto social para além dos médicos e enfermeiras. Ficam na Alemanha, longe dos seus familiares, semanas e muitas vezes até vários meses, antes de terminarem os tratamentos e poderem regressar ao seu país de origem.

A sua vinda para a Alemanha é assegurada por organizações de ajuda humanitária que possibilitam a essas crianças tratamentos e curas hospitalares às quais de outra maneira nunca teriam acesso.

Elas precisam antes de tudo de conversar em português, de alguém que traduza os seus medos e as suas necessidades às equipas dos hospitais, e também quem lhes traduza a elas quais os procedimentos, operações e tratamentos que lhes vão ser aplicados.

Algumas crianças nem sabem que estão na Alemanha. Sabem que estão num lugar estranho, longe dos pais, doentes, com muitas dores, „presas“ a uma cama e sem conseguirem comunicar.

As equipas dos hospitais são regra geral extremamente competentes e estão empenhadas em proporcionar às crianças o melhor tratamento possível. Mas sem compreenderem a língua, estas crianças têm medo do que lhes vão fazer, não entendem o que está a acontecer e passam o dia sozinhas.

O magazine Berlinda.org apela a todos os falantes de português que dêm um pouco do seu tempo para aliviar a vida destas crianças.”


6 thoughts on “Anjos

      1. Oi estive lendo sobre as criancas, e me preocupei, pois imajino como elas se sentem e eu as encaro como anjos sem asas!! Eu vivo em Hamburg, e busco uma motivacao para meu dia a dia, sou casada, tenho 38 anos e dois filhos aki comigo, entao eles vao para escola e o marido ao trabalho, eu sempre em casa cuidando dos afazeres domesticos. Entao pensei que estaria fazendo um bem enorme a estas criancas e a mim tambem, preechendo meu tempo a me dedicar um pouco a elas!! Entao se existir aki em Hamburg estes anjinhos precisando de ajuda, por favor nao exite em me informar!! Obrigada!!

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  1. Oi Ana. Soube desse seu apelo através de um grupo de Brasileiras in Deutschland.
    Eu moro no sul e gostaria de ajudar mesmo falando bem pouco alemão e um pouco de ingles…
    Parabéns pela iniciativa.

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