A loba e os cordeirinhos ou a visita de Merkel

Há dias em que olho para Portugal e vejo nele um navio, onde no deck se continua a dançar enquanto a casa das máquinas mete água por todos os lados. Com o iminente naufrágio à vista, o que faz parte do país? Alinha numa espécie de histeria colectiva anti-germânica, que atingiu o zénite do disparate com a declaração da chanceler como “persona não grata”.

A propósito disto a Der Spiegel publica hoje uma pequena notícia sobre as manifestações dia 12 e a carta aberta de alguns intelectuais e artistas portugueses. Numa penada, ou melhor, com um parêntesis mordaz, o semanário sintetiza o absurdo do nome [não do movimento] “que se lixe a troika”. Escreve a Der Spiegel. “Zum Teufel mit der (Gelgeber-)Troika” (“Que se lixe a troika (que dá o dinheiro)”. Na mesma notícia salienta-se que “dois dias depois da visita, a CGTP organiza no país mais pobre da Europa ocidental uma greve geral contra a política de poupança do governo de centro-direita de Pedro Passos Coelho”.

Pois lá vamos outra vez.

Talvez valha a pena começar por lembrar o óbvio. Não foi a Alemanha que mergulhou Portugal – desde a década de 30 e Duarte Pacheco – numa orgia de obra públicas do género “foi você quem pediu um aeroporto? Ou uma rotunda?”. A Alemanha não é responsável por essa herança salazarista que é o facto de 75 por cento dos portugueses (professores, médicos, juízes, militares, bolseiros, funcionários públicos, artistas) estarem dependentes do Estado, na sua totalidade ou em parte. Não foi a Alemanha, nem a chanceler Merkel que governou Portugal desde 1974. E, apesar dos gritos constantes de “aqui d’el-rei, que nos querem silenciar e domesticar!”, os portugueses sabem bem que não é a toda-poderosa chanceler que ameaça Portugal. Portugal ameaça-se a si mesmo.

Talvez valha a pena lembrar também que se Portugal é hoje um regime democrático, e não se transformou numa Albânia, deve-o em grande medida a Bona e às fundações políticas alemãs, Konrad Adenauer e Friedrich Ebert. Apesar do senador Mário Soares aparentemente o ter recalcado o PS foi fundado a 19 de Abril 1973 em Bad Münstereiffel, com o apoio do então chanceler Willy Brandt. Tanto o PS como o PSD receberam ajudas financeiras (milionárias) dos partidos alemães.

Talvez valha a pena lembrar que há actualmente cerca 300 empresas alemãs ou com capital alemão em Portugal. A Autoeuropa (de que dependem directamente quase 4 mil trabalhadores e 79 empresas portuguesas fornecedoras) ocupa o segundo lugar nas exportações portuguesas (ou seja, 1,4 por cento do PIB nacional), a Bosh ocupa o quarto lugar e a Continental o sexto. Como é? A chanceler é persona non grata, mas o investimento directo alemão não? Ou eu estou a ver tudo mal ou alguém perdeu o juízo.

A Alemanha não negará solidariedade a Portugal, desde que as reformas estruturais que defende (e que a própria Alemanha já fez) sejam concretizadas.

Nota final: Respeito os dramas individuais e as enormes dificuldades que demasiados portugueses atravessam. Dói-me ver jovens bem qualificados a serem forcados a abandonar o país, transformados numa espécie de refugiados económicos, enfurece-me ver pessoas a sobreviver com pensões de miséria, mas a superfície de projecção desta insatisfação está errado. Não se criem fábulas. Merkel não é a loba, nem os portugueses cordeirinhos.

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15 thoughts on “A loba e os cordeirinhos ou a visita de Merkel

  1. Olá Helena. Muito bem escrtio …
    Faz tempo que sigo os jornais portugueses, principalmente o Expresso.
    Escrevo muitas vezes comentarios mas nao me consigo expressar tambem como vc. Deve ser da profissa.
    É verdade que os Portugueses ainda sonham que se pode fazer de Portugal um pais economicamente estavel sem fazer nada, e continuando com os luxos do antigamente… Infelizmente … Que saudades eu tenho desse pais de lutadores … Agora todos se dedicam á critica em vez de se dedicarem a trabalhar …
    Talvez eu esteja a viver um “generation gap” mas na minha geracao era diferente…
    Que bem me fez ler o seu artigo, vc é o maximo e sempre consegue escrever aquilo que nos vai na cabeca mas nós simples leitores nao sabemos escrever. É bom ler o seu blog….obrigado

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  2. Concordo e gostei do artigo, muito bem escrito e objectivo.
    Mas por acaso até acho que a Sra Merkel é mais loba e os portugueses são mais cordeirinhos. 🙂
    Portugal vive um ambiente quase doentio onde se fala na crise diariamente desde há mais de 3 anos, onde também todos os dias são anunciadas medidas que tornam a vida das pessoas pior.
    Quando os deuses mandam desgraças é preciso encontrar demónios. Nada melhor do que ir buscar fantasmas do passado e começar por encontrar culpados. A Alemanha actual, excepto talvez no futebol, continua um ilustre desconhecido dos portugueses, que a imaginam rica, de botas altas e nazi, tem-se a pouco e pouco tornado no seu alvo preferido, e com alguma propaganda disfarçada de notícias nos jornais e também na net. E os portugueses embarcam na onda.
    Daí eu dizer que afinal até são cordeirinhos.
    Acompanho à distância os títulos dos jornais nacionais, e costumo guardar as notícias sobre a Alemanha, quase invariavelmente de teor ruim; algo me diz que este crescendo anti-germânico tem sido de alguma maneira orquestrado e até está a resultar.
    Será preciso os cordeirinhos acordarem e virarem-se realmente contra os verdadeiros demónios internos.
    Merkel continua a fazer a sua política com o horizonte das eleições daqui a um ano e está a jogar internamente para isso. O recente “adiamento” da taxa de transacções financeiras foi mais um exemplo disso. Não será tão pouco loba.
    Daí a minha primeira frase, afinal é mais loba do que menos 🙂
    A nós portugueses talvez um pouco de autocrítica colectiva e reflexão não nos fizesse mal nenhum.
    E começar por ler este texto da Helena também.

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    1. Fernando, somando os 19,7 por cento de funcionários públicos, aos 20 por cento da população que vivem do apoio directo do Estado, aos restantes trabalhadores que não sendo funcionários públicos ( por exemplo bolseiros ou artistas ) dependem directa ou indirectamente do erário público. Basta consultar o INE.

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      1. Peço desculpa então, mas devo ser um mau consultor do INE. Não consigo perceber como 609.000 (608,7 para ser correto) funcionários públicos são 19,7% da população (fala de portugueses e não de população activa), os 20% que vivem do apoio direto do Estado serão não sei bem quem (os do rendimento mínimo garantido? ) nem sabia que são assim tantos artistas ou bolseiros.
        A estrutura da nossa economia é conhecida; ela não está ligada ao funcionalismo mas sim ás pequenas empresas. Repare que até pode ter razão em todo o resto da argumentação, mas o usar um número desses falseia a informação e cai na esparrela do exagero escandalizado.

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      2. Fernando, eu referi-me a dependência directa e indirecta. Uma PME ou outra empresa ( basta olhar para o sector da construção civil) que tenha o Estado como cliente depende dele. Assim como quando refiro o lato “artistas” estou a pensar em grupos teatrais, apoio ao cinema, às artes e as fundações. E acredite que temos muitos bolseiros ( que deviam ser aproveitados pelo país e não mantidos num limbo de incerteza, conheço muitos doutorados e pós-doutorados que vivem situações desesperadas).

        O Estado tem demasiado peso na economia portuguesa. Uma herança salazarista que foi acarinhada no pós 25 de Abril.

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  3. Que me perdoe insistir no problema dos 75%. Obviamente que esse é um exagero, até uma incorreção que leva a uma distorção da análise. Sabe-se bem quem tem sugado o Estado. Não são as PME’s, da contrução ou outras, que são as clientes do Estado. São as grandes empresas, muitas delas dirigidas por ex-políticos. É fácil ver quem tem mamado na teta do Estado: não são funcionários públicos nem PME’s que estão ligadas ao sugadouro das PPP’s, não foram elas que lucraram com a neo-regeneração que vem desde os Cavaco de Cavaco Silva, Não, quem tem lucrado são os BCP’s de Dias Loureiro ou as Mota-Engi’s de Jorge Coelho.
    É que isso faz toda a diferença: não são 75% de portugueses a viver à custa do Estado (dito assim parece que um professor que ensina a minha filha ou um enfermeiro que trata de mim é um parasita que me leva á falência). É o Estado que, para alimentar os seus parasitas, vive à custa de 75% portugueses (como se pode viver à custa quando se paga tamanhos impostos?). E como esses são são pobres e os hábitos dos grandes são devoradores, precisaram do empréstimo estrangeiro.

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    1. Fernando eu não fiz juízos de valor, nem considero um professor ou um enfermeiro parasitas, pelo contrário.

      Eu limito-me a constatar uma dependência , sublinho uma vez mais directa ou indirecta, do Estado de uma esmagadora maioria dos portugueses. Claro que as grandes empresas de construção civil, bancos e afins contribuíram para a actual situação ( e certamente mais que as PME).

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      1. Mas isto é só doutores a dissertar!!!!!! 75% dos portugueses vivem do dinheiro do contribuinte? Nunca vi nem li tamanha aberração. Se me disserem que o estado tem cerca de 10% da população activa como funcionários, eu acredito. Como é obvio, os seus familiares beneficiam em parte dos seus direitos como funcionários públicos, mas não vamos por aí. Sejamos francos, os portugueses não gastam o dinheiro do contribuinte. Certo que temos talvez demasiados funcionários públicos, também porque foi nescessário absorver os refugiados e retornados quando da descolonização. Certo que o desemprego é a pior praga social. Todos sabemos que quando as familias não têm salário não há saúde, não há educação, não há justiça, aumenta a insegurança, não há paz social. Portugal nunca foi um país de grandes empregadores. Assim sendo, os sucessivos governos do pós revolução fizeram o favor de resolver o problema através de admissões massivas na função pública. Foram muitos voluntários para as forças armadas, para as forças de segurança, concursos para admissão em ministérios e autarquias, e até sem concursos!!!!! Agora estamos a braços com um problema, a dita praga social que tanto aterroriza. Como é claro, não sendos as empresas portuguesas grandes empregadoras, as alemãs serão sempre bem vindas, mas não à custa da esploração do nosso povo. Temos direito a uma vida tão digna quanto o povo alemão.

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