Kafka na Guiné

Com o silenciar da imprensa os contornos do desastre ficam completos. Em Bissau uma ditadura de incompetentes, com a singular característica da figura do ditador ser substituída com a regularidade das cabeças que rolam, mantém refém os guineenses. Que passam fome no Boé, chão da independência. Os que podem fogem do país, onde a esperança média de vida ronda os quarenta anos e o índice de desenvolvimento humano arrepia.

Apenas numa coisa a Guiné, um Estado à beira do falhado, lidera.Um dos saberes acumulados no pós-independência, pelo poder guineense é a capacidade mirabolante de montar “inventonas”, golpes e contra-golpes, de forma a criar pretexto para purgar os inimigos. Presidentes e militares tornaram-se exímios nesse jogo. Com a conivência de muitos: os doadores internacionais que prometem e não cumprem, os países vizinhos, a começar pelo Senegal, a quem a desestabilização da Guiné serve e Portugal, a quem a Guiné dá jeito para manter umas coutadas económicas, como o vergonhoso monopólio da TAP, mas que receia uma nova humilhação como a de ver um navio pesqueiro substituir-se à orgulhosa marinha portuguesa.

Como escreve Pedro Rosa Mendes “é importante recordar que o Portugal democrático falhou à Guiné independente tanto como o Portugal salazarista falhou à «Guiné Portuguesa». Portugal, que matou e deixou matar o fundador do PAIGC, afadigou–se depois – com os pêsames da carpideira – em legitimar interlocutores que, de Amílcar, quase só tinham o Cabral ou a invocação de seu nome em vão. («Cabral ka mori», Cabral não morreu, o Pai-Nosso-que- Estais-traído da Guiné independente)”. Desde 1975 que “Portugal engoliu sucessivamente o massacre dos comandos africanos (evitou-se uma UNITA guineense, dizem…); o golpe de João Bernardo «Nino» Vieira em 1980 e a purga étnica de um sonho binacional; o processo brutal de Paulo Correia e da liderança balanta em 1985; a violência política nos anos 80 e 90 como perpétuo programa de governo; a corrupção bilateral vendida como interesses nacionais e ajuda ao desenvolvimento; e a fatalidade de ter homens sem grandeza como interlocutores dos grandes momentos. Talvez por isso, em Portugal, esquerda e direita continuam a preferir esgrimir velhas «culpas» imperiais, afinal menos incómodas do que as responsabilidades no presente: Lisboa, a coberto do respeito pelas «autoridades soberanas», silenciou ou caucionou um grupo politicamente inimputável que, em Bissau, continua a tratar o país como se ainda estivesse no Congresso de Cassacá, em 1964”.

A actual situação política na Guiné-Bissau desde o golpe de Estado de Abril e a violência de Outubro é demasiado complexa, há demasiados actores e interesses em jogo, para ser
destrinçada num simples post. O que me preocupa neste momento é ver este pequeno país morrer mais um pouco com o silenciamento da imprensa, a expulsão do correspondente da RTP e intimidação dos jornalistas guineenses ( alguns ameaçados de morte). Se nada for feito estaremos qualquer dia kafkianamente a assistir ao julgamento de um morto.

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6 thoughts on “Kafka na Guiné

  1. Nunca fui à Guiné, apesar de ter um interesse afectivo grande nele – o meu pai quase nasceu lá e ali viveu muitos anos. É uma das razões pelas quais gosto de ler os seus textos sobre o país – não sei explicar-lhe exactamente porquê.

    Este picou-me um bocadinho mais, porém. Confesso-lhe que não percebo nem a frase de Pedro Rosa Mendes nem os exemplos que a consubstanciam.

    A única maneira que Portugal tinha de não falhar à Guiné Bissau era obviamente tomar de novo a administração daquilo em mãos. Infelizmente essa solução era impossível – política e militarmente impossível.

    Amílcar Cabral, apesar de nascido na Guiné era visto como um Cabo Verdeano. Não teria a mais pequena probabilidade de liderar a Guiné-Bissau, mesmo se o país um fosse mais “normal” – isto é, não fosse um estado falhado.

    Enfim, peço-lhe desculpa, isto vai assim desconchavado.

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    1. Luís, antes de mais não precisa de pedir desculpa. Escreveu o que lhe ia no peito, sem filtros.
      Se lê os meus textos sobre a Guiné já se apercebeu certamente do meu amor por este país que me viu nascer, mas que não é o meu.Escrevi aqui por inúmeras vezes que os guineenses não merecem que os privem de horizonte. Defendo que Portugal devia fazer da Guiné uma causa nacional, como fez de Timor.

      Quanto à frase de Pedro Rosa Mendes ela refere-se ao período colonial (e aí Portugal falhou na Guiné, como nas outras colónias ao privilegiar a suposta superioridade lusitana e ao manter na miséria e ignorância as populações locais) e pós colonial (onde por mais de uma vez podia ter tido um papel determinante, sem recurso a armas, mas descartou-se de responsabilidades. A Guiné é uma espécie de requiem da política externa portuguesa). Portugal não tem (e não pode) que tomar em mãos a Guiné, mas pode à imagem da França, ter uma política mais assertiva (até pela via económica)e sem complexos bacocos. Nesta questão temos a CPLP do nosso lado e o peso de países como o Brasil e Angola. A Guiné precisa de Portugal, não a podemos abandonar. É preciso que se se entenda, além do dever moral, que a uma Guiné falhada tem consequências gravíssimas para a Europa.

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  2. Já comentei noutro dia como me tocam estes posts da Helena sobre a Guiné. Eu sei que em Portugal andamos preocupados com a “nossa” crise, mas seria bom não esquecermos os povos que nos estão particularmente ligados e em situação difícil.

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