A moda sem importância

Existe um mundo de fancaria onde os preços enunciados pelas etiquetas são uma atrocidade. Por, com o nosso beneplácito, condenarem milhões pessoas por esse mundo fora, também em Portugal, a um trabalho quase escravo.

Em média cada mulher europeia possui 22 peças de roupa ou acessórios que nunca usou. Inquietante desperdício (de que me confesso também culpada).

Mais perturbadoras do que o desperdício, que pode ser compensado através da doação do que não se necessita, são consequências ambientais e humanas do comportamento convulsivo das fashionistas ocidentais.

Longe vão os dias em que a roupa era remendada e preservada. Agora sempre a Zara ou a H&M lança uma colecção em colaboração com um designer fazem-se compras como se não houvesse amanhã. Depois misturam-se estas baratas com uma mala it ou uns sapatos exclusivos e tem-se a ilusão de se ser um avatar de uma qualquer celebridade. Passe-se os olhos pela blogoesfera e atente-se na quantidade de blogs sobre moda, os novos altares deste consumismo desenfreado.

Em 2011 a ecologista e jornalista Lucy Siegle publicou “To Die For: Is Fashion Wearing Out the World? “, um livro extraordinário – resultante de uma investigação profunda sobre os bastidores da indústria da moda – que perturba o nosso egoísmo. Um excerto: ” o Uzebequistão é um dos maiores exportadores mundiais de algodão. Todos os anos o governo encerra as escolas no Outono e força crianças, algumas com apenas sete anos a colher algodão”. Refere-se também a anormalmente elevada taxa de suicídio na Índia entre os trabalhadores nos campos de algodão – segundo dados da OMS anualmente morrem entre 20 mil a 40 mil trabalhadores em todo o mundo devido aos pesticidas usados na produção de algodão- ou as costureiras obrigadas a tomar a pílula porque a maternidade atrapalharia a processo produtivo.

A nossa tshirt barata tem um preço demasiado elevado: o abandono dos riscados do mundo. Depois de ler Lucy Siegle pensarei duas vezes antes de me precipitar sobre algo de que não necessito de facto.

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4 thoughts on “A moda sem importância

  1. Acredite, Helena, que tenho dias em que o fashionismo me irrita solenemente. Por isso que diz, também. Lembra-me quando vi Diamante de Sangue no cinema, Quando saí senti uma “náusea psicológica” ao ver as montras e as ouriversarias. Obrigada por nos lembrar (d)isto.

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    1. Fátima, eu acho saudável que se cuide da imagem, mas o que me inquieta é por um lado o fundamentalismo da indústria da moda e por outro a cultura do descartável. Tudo parece ser descartável, desde a tshirt que está out, às pessoas que a produzem em condições degradantes, passando pelo meio ambiente.
      Felizmente que há alternativas e uma moda ética.

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