Balas ecológicas

A Nammo é una fábrica norueguesa de munições. Produz balas eco-friendly, sem chumbo nem metais pesados que poluam a natureza. Não deixa por isso de ser menos mortífera: “o seu coração de aço proporciona-lhe uma perfuração melhorada”, pode ler-se no catálogo. Nada ilustra melhor o profundo respeito pela natureza desta firma nórdica do que a brochura que publicita a bala verde. Na imagem uma bala brilhante, atravessando um campo, na bala reflecte-se a uma árvore e algumas flores. Non Toxic Ammunition.

A publicidade acompanha os tropismos sociais do seu tempo. Neste mundo perfeito dos catálogos e das feiras de armamento a morte não presta como acessório.

Numa época que sacralizou a ecologia e se esquece o humano, que se recusa a realidade, dura, para se entregar ao culto da futilidade, da celebridade, do jejum de inteligência da imprensa tablóide e das revistas de papel lustroso, não espanta que já ninguém fale no Iraque, que a Síria mereça um rodapé num qualquer noticiário e ninguém perca cinco segundos a pensar na tragédia guineense.

Sobram  razões para que se olhe com respeito para Bayeux, uma pequena cidade  na Normadia. Há 19 anos, geralmente em Outubro, que se realiza aqui a entrega dos Prémios Bayeux-Calvados para correspondentes de guerra. Um júri de 47 jornalistas, debate durante dois dias onde acaba a notícia e começa o voyeurismo.  Em poucos outros encontros de jornalistas ficarão tão a nu as contradições dos media. A concorrência é cada vez maior assim como a exigência aos profissionais, o inverso se pode dizer quando se fala de contrapartidas. “Oitenta por cento por cento dos jornalistas que cobrem o conflito na Síria são freelancers. Os grandes órgãos de comunicação social deviam enviar também os seus jornalistas”, disse Javier Espinosa, o vencedor deste ano na categoria de imprensa com a reportagem “A última batalha de Bab Amr”. Espinosa é o correspondente em Beirute do diário El Mundo  e estava com o fotógrafo francês Rémi Ochlik e a repórter do  Sunday Times, Marie Colvin, quando ambos foram mortos  em Homs. “ Nós temos o dever de dizer ao mundo o que está acontecer aqui. Logo que possa regresso à Síria”.

Em Bayeux ergueu-se um monumento aos fotógrafos, operadores de imagem e jornalistas mortos durante um conflito. Mais de dois mil  nomes, de 1944 até hoje, estão gravados em pedra e o número não para de crescer.  Os riscos que os jornalistas correm em “guerras não convencionais” são muito maiores. Só na Síria desde o início da rebelião no ano passado morreram sete jornalistas. Às vezes nem o pânico chega a tempo. “Quem quer ser livre, deseja a liberdade dos outros”, escreveu Simone de Beauvoir.

Durante o encontro que precede a entrega dos prémios aos correspondentes de guerra há uma pequena feira do livro. Lá se encontram, por exemplo, vertidos em papel os 547 dias que Hervé Ghesquière passou como prisioneiro dos talibans. Lê-lo ou ler o testemunho de outros jornalistas em zonas de conflito é não se demitir, é ficar a saber que a guerra tem o som ruidoso da desordem, rtatatata-bummm-bummm, tem cheiro, o cheiro da morte chega primeiro que a visão dos cadáveres, tem a textura de casas sem esquinas, de buracos abertos por obuses e balas, de mutilados, e tem cor: transparente-lágrimas, negro, vermelho-sangue. A guerra não é um jogo de vídeo, nem uma abstracção, é um toque de lepra. Contá-la a partir de histórias narradas pelos extraordinários personagens que a habitam é uma das mais difíceis, dolorosas, e nobres missões do jornalismo.

De uma grande amiga, jornalista freelancer, que se encontra neste momento no Iraque, depois de ter estado Egipto, recebi o seguinte sms: “isto está cada vez mais difícil”.

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