Irritações, nazis e casacos: ou como vai a Europa

Manifestantes gregos protestam contra a visita de Angela Merkel

Ontem coloquei no mural do meu Facebook a foto que ilustra este post. No comentário que fiz referi que esta bandeira era merecidamente queimada e que nada tem a ver com a Alemanha actual. E não deixa de ter uma pitada de ironia num país que elegeu o Aurora Dourada, um partido abertamente neonazi, para o parlamento.

Rapidamente se gerou uma discussão em torno da “mesquinhez alemã”, a origem de todos os males europeus para muitos – é tão bíblico ver a trave no olho do outro, e como este é um post en passant não vou contra-argumentar – e sobre o facto dos gregos e dos portugueses não serem “abstrações numéricas”, nem “modelos matemáticos”. Com último ponto penso que qualquer pessoa de bom senso concorda. Há neste momento por essa Europa fora demasiadas existências desesperadas a lutar pela sobrevivência.

Também as há na Alemanha, onde um cada seis cidadãos vive abaixo do limiar da pobreza, ou seja quase 14 milhões de pessoas. Na maior economia europeia há mais pobres do que em França, na Holanda ou na Áustria. Há miúdos que vão para a escola sem pequeno-almoço e para uma refeição quente recorrem à “sopa dos pobres”, para terem uma camisola “nova” vão buscá-la há igreja.Vá-se à Berlim que não vem nos guias turísticos ou à zona do Ruhr. Curiosamente com excepção da esquerda alemã não li uma única palavra de solidariedade europeia para com os vencidos da vida alemães. Não passa na narrativa do bode expiatório?

Adiante. O foguetório anti-merkel (e anti-Alemanha) impede que se distinga o acessório do fundamental e o disparate é tanto que até a escolha do casaco que a chanceler usou na sua visita a Atenas – o mesmo que trazia no dia em a selecção alemã venceu a grega – chegou a ser interpretada como uma forma de “humilhar” Atenas. Para a maioria dos alemães e para os protestantes em particular o “Sein” (ser, a essência) é o que conta, não o “Schein” (parecer). Aqui não é o hábito que faz o monge. E ainda bem acrescento eu.

Não é a primeira vez que Angela Merkel repete uma peça de vestuário – no Festival de Bayreuth deste ano usou o mesmo vestido que em 2008, em Salzburgo um quimono psicadélico que já havia envergado em 2002 – e é conhecida a sua predilecção por casacos com botões grandes. O que tem uma explicação muito simples nas palavras Anne Willi, a estilista da chanceler, o botão superior do casaco tem um chip integrado através do qual ela pode comunicar com os seus seguranças (o canal Arte fez um documentário sobre o assunto). This is not about the look, this about the looks. Perceberam?

(a este propósito vale muito a pena ler o post da Helena Araújo).

E como os maiores críticos de Merkel são os próprios alemães fica aqui o cartoon.

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3 thoughts on “Irritações, nazis e casacos: ou como vai a Europa

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