Vorstellungsgespräch

Poucos acontecimentos na Alemanha se revestem da seriedade de uma Vorstellungsgespräch no liceu (assim de repente só me lembro de uma vistoria das Finanças e de um funeral de Estado).

O ser ou não aceite na escola certa determina o futuro da descendência até à entrada para a Universidade, no mínimo. Depois de um período de gestação profunda (é necessária quase uma licenciatura para ler toda a informação entregue pelo ministério aos progenitores), alimentada pelas aquisições da experiência da mais velha, identificou-se a escola. Católica, com turmas exclusivamente femininas. “This is madness!”, rosnava o 3CPO para o R2D2 na Guerra das Estrelas. E tinha toda a razão. Mas há loucuras e loucuras. Eu explico.

 Conhecendo a minha filha mais nova, que aos nove anos vai levando a vida como aqueles equilibristas de pratos, que aceleram o ritmo delirantemente e apanham pratos vindos da esquerda e da direita, de trás e da frente, sem se desequilibrar, nem os pratos estremecerem (apenas a mãe), achei que o mais adequado para ela seria uma escola de “leise Töne”.

Marcada a entrevista, reunido o conselho familiar lá fomos todos para a temível “Vorstellungsgespräch”. Como um ganchinho no cabelo e o vestido certo fazem milagres a Matilde parecia o anjo que está nos antípodas de ser. “Cara família as primeiras perguntas são exclusivamente dirigidas à aluna, de acordo?”. Hi, hi Sir! “Religião?”, “Católica”, “Fez a primeira comunhão?”, “Sim”, “É acólita?”, “Sim, em duas igrejas, na alemã e na portuguesa”. Professor rasga um sorriso de orelha a orelha e escreve na folhinha.

 “Muito bem, o que gosta de fazer nos tempos livres?”. OHVALHAMEDEUS. Mãe revê mentalmente a bicicleta com a pintura raspada e com um pedal perdido em parte incerta, os patins em linha alojados na sala, o Nintendo escondido debaixo da almofada do sofá ao lado do iTouch… “Gosto de tocar piano e flauta barroca”. ALELUIAALELUIAALELUIA (juro que não fui eu que ensaiei a criancinha). Anoto: dar um beijo à professora de música.

“E mais?” “Aterrorizar a rua”. GASP. Mãe desesperadamente à procura de oxigénio. “Estava brincar”, diz,  subtil, a espertalhona com um sorriso de Mona Lisa (a propósito do sorriso da Mona Lisa, sabiam que duas universidades, a Universidade de Amesterdão, em colaboração com a Universidade de Illinois, desenvolveram um modelo matemático que descreve o sorriso de Mona Lisa como uma mulher 83 por cento feliz, 9 por cento enjoada, 6 por cento atemorizada e 2 por cento incomodada? As coisas de uma pessoa se lembra em momentos de crise…).

“Gosto de ler livros de animais e…”. Passam-me pelo cinema do cérebro as pilhas de Geolinos (viva a geografia e a ecologia), os livros de cavalos (uma praga maior do que a vampirada) e a literatura de cordel teenager-parva, subtraída ao quarto da mais velha, com títulos sugestivos como: “Os rapazes são como a pastilha elástica: enrolam-se nos dedos”. “E da Astrid Lindgren e da Cornelia Funke”. O professor teve uma epifania como se lhe acabassem de dizer que estava a ler a “Guerra e Paz” em russo.

“Então e os certificados?”. Com minúcia passa em revista as avaliações da escola primária. ” Competências sociais, muito bem. Hummm. Mas diz aqui que se aplica de forma variável nas aulas. Só trabalha quando lhe apetece?”. “Sim”. Autschh. ” E quais são as disciplinas de gosta?”, “Desporto (surprise, surprise), Inglês (surprise, surprise), Alemão ( clap, clap, clap) e Ciências da Natureza”. ” E Matemática?” (o professor lecciona Matemática e Física). ” Não gosto muito. O Papi diz que a matemática explica o funcionamento do universo (twelve points) e introduz ordem no caos e a Mami diz que um certo caos estimula a criatividade (com esta idade em já devia saber que morder a língua é por vezes uma virtude), basta olhar para o escritório dela…”. O meu buraco? Onde está o meu buraco?

“Bem não acho que seja necessário fazer mais perguntas, nem fazer perguntas à família”. Ai, ai, ai.

” Eu não lhes devia dizer isto antes de Fevereiro, mas com as notas da sua filha e a capacidade de argumentação que ela tem, será com toda a certeza, e com muito gosto, nossa aluna no próximo lectivo”.

 Às vezes é puro acaso. Isto é, há uma série de elementos improváveis que se congregam para que algo de compensador aconteça. Mas acredito que aqui também há algum mérito, passe a imodéstia. Agora vou ali buscar em lenço de papel que me estou a babar para cima do teclado.

 PS – Eu também não vos disse isto, mas se a escola está à espera de uma cópia em versão fastforward da mais velha, a diplomata, a ponderada, tschhhhh, desengane-se.

Certos nomes  e certas  pessoas possuem uma particularidade,  exprimem uma  aspiração, nesta caso a “domesticação”,  que tanto mais nos atrai quanto sabemos que nunca será satisfeita. Matilde “Die Wilde” (a indomável), é a alcunha da mais nova (desde o Kindergarten).Ohmmmm.

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