Os islamistas e os direitos da mulher (ou mais do mesmo)

A história desta mulher tunisina desmonta, com absoluta nitidez, o discurso praticado no Ocidente: não há “grandes motivos de preocupação” pela chegada dos islamistas moderados da Ennahda ao poder na Tunísia. Há, e muitos. Isto se  não considerarmos como assunto menor os direitos de metade da humanidade.

Passou-se no início de Setembro em Tunes. Ela, não se lhe conhece o nome nem o rosto, estava com o noivo no carro.”Vestidos e cada um no seu banco”. Chegaram três polícias e pediram ao casal dinheiro, 300 dinares (150 euros), que não tinha. Extorquiram-lhes 40 (20 euros). Em seguida, enquanto um polícia o segurava o noivo, algemado, os outros dois violaram a namorada.

Ela apresentou queixa. “Depois de ter sido humilhada da forma que fui, não vou retirar  a minha queixa”, disse à agência noticiosa AFP. A coragem contra a escuridão da violência. Os agentes foram detidos e na terça-feira ( 2 de Outubro) inicia-se o julgamento.

Numa surpreendente inversão dos factos a mulher é acusada de “atentado contra o pudor” e arrisca, juntamente com o seu noivo, uma pena de prisão.

Para a Amnistia Internacional trata-se de uma “tentativa insidiosa de desacreditar a vítima e proteger aqueles que ela acusa”.  Entretanto nas redes sociais foi convocado para dia 2 de Outubro uma manifestação de apoio a esta jovem mulher.

Desde que o Ennahda assumiu o poder que as ONG denunciam um crescente assédio das tunisinas pela polícia, seja pela forma como se vestem ou por saírem à noite, e uma deterioração dos direitos da mulher.

Em 1956, Habib Bourguiba, o primeiro Presidente da Tunísia depois da independência, retirou com as próprias mãos os lenços às mulheres que cobriam a cabeça. Foi ele que, ao fim de cinco meses de independência, promulgou o Código do Estatuto Pessoal, pela igualdade de géneros, que deu às tunisinas o mais avançado estatuto entre todas as mulheres dos países árabes. Uma das promessas eleitorais do Ennahda  foi não tocar nesse estatuto.

Só a contestação popular evitou que na futura Constituição a mulher fosse considerada “complementar” e não igual ao homem (este projecto de alteração constitucional foi felizmente abandonado nesta segunda-feira).

A religião tem as costas muito largas, mas não há “fé”, ou “cultura” que justifique o atropelamento dos direitos humanos.

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One thought on “Os islamistas e os direitos da mulher (ou mais do mesmo)

  1. Também me preocupa o rumo que a sociedade tunisina possa tomar (embora haja marcas claras de liberdade política, agora). Visitei algumas vezes a Tunísia, sempre me senti muito bem lá, as mulheres gozavam de liberdade social, laboral, individual. Embora umas fossem mais conservadoras do que outras, no vestir ou socialmente, forçadas pelo meio ou não, a verdade é que se tratava de uma sociedade justa a esse nível. Era mesmo o que Ben Ali e Leila tinham de bom. Agora assusta-me pensar que poderá haver um retrocesso, muitas mulheres usam lenço (embora haja várias explicações para isso, dadas por uma tunisina amiga que não usa) e, pior do que isso, será a separação/segregação que poderá surgir. Já ouvi dizer que há filas para homens e mulheres nalguns sítios, não sei se é verdade. Em todo o caso, há muita gente contra e atenta a estas manifestações de radicalismo que estiveram arredadas da sua história moderna até aqui. Vamos ver se conseguem segurar e evitar o pior, assim o espero… Penso que em janeiro vão a votos novamente. Mas a verdade é esta – os governos não podem senão ser laicos.

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