A CPLP é um tigre de papel ?

HFG, Bissau, 2010

Posso adiantar o desfecho: não aconteceu. A Guiné inteira olhava hoje para Nova Iorque, queria iludir-se que sim, que o mundo se interessa por ela. Cruel desengano.

Dois presidentes, o deposto , Raimundo Pereira, e o de “transição”,  Serifo Nhamadjo, viajaram para a Assembleia Geral da ONU. Surreal? Não. Apenas fruto da gravíssima crise, sem fim à vista, que se  vive na Guiné.

Durante toda a semana assistiu-se nos corredores das Nações Unidas a um braço de ferro entre a CEDEAO e a CPLP sobre quem iria discursar hoje representando o país.

A Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), apoiada pelos Estados Unidos, e  liderada pela Nigéria, país com um registo de violações dos direitos humanos mais tóxico do que o delta do Níger, defendia que uma intervenção das autoridades depostas da Guiné-Bissau na Assembleia-Geral da ONU “aumentaria as tensões” internas. Para evitar uma intervenção do presidente deposto foi apresentando recurso atrás de recurso à Assembleia-Geral.

Os países de língua portuguesa, que se recusam a colaborar com o auto-intitulado governo de transição, advogavam um discurso de Raimundo Pereira, que chegou a estar incluído esta tarde na lista de oradores.  A todo o custo a comunidade lusófona quer evitar o requiem da sua política externa , ou a prova da sua total incapacidade, que seria o reconhecimento pela ONU de um governo golpista.

Surpreendentemente (ou talvez não) no momento de discursar o representante da Guiné não foi chamado à tribuna. Uma vez mais ficou demonstrado que a comunidade lusófona não tem força para exercer influência no futuro político da Guiné-Bissau.

Recentemente numa entrevista à DW, o politólogo Bernardo Pires de Lima, salientou que ” o facto de não ter havido uma restituição da normalidade constitucional na Guiné-Bissau depois do golpe de Estado [de 12.04] mostra que a CPLP não tem força para impor a sua resolução [de não colaborar com os interinos]. Quando é reconhecido o presidente interino e o governo de transição – caminho proposto pela CEDEAO – é a CEDEAO que emerge na gestão da crise guineense, e não a CPLP”.

Para Bernardo Pires de Lima, a Guiné-Bissau tem um interesse geoestratégico “brutal” para a região ocidental africana, “por ser um país voltado para o Atlântico, pelo tráfego marítimo, e por ter uma instabilidade que traz benefícios a outros Estados”.

Este é um momento de encruzilhada onde se vai ver se a CPLP tem alguma estratégia e vontade, para além dos discursos de circunstância, ou se não passa de um tigre de papel. Enquanto a Assembleia Geral nao acabar ainda há esperança

Apenas uma coisa: pelas mensagens que recebemos na rádio dos nossos ouvintes na Guiné sei que a milhares de quilómetros de Nova Iorque os guineenses depositam a réstia de fé que  lhes resta nas mãos dos diplomatas da CPLP.

É muito grave a actual situação que se vive na Guiné A instabilidade corroí o país.  Corro risco de me repetir, mas volto a escrever.Quem se interessa um pouco por história africana sabe que as Libérias do continente se fizeram de uma combinação de ingredientes: anarquia, etnicidade, impunidade, crime organizado. Estão lá todos.

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