Helmut Kohl, o ícone

Helmut (Couve) Kohl

O que é um “grande homem”? Define-se por uma categoria moral? Ou pelo impacto que a sua acção teve? Este é um debate interessante, não apenas para historiadores, mas também para jornalistas. Os “grandes homens” (e mulheres já agora) são capazes do melhor e do pior, ao mesmo tempo. Têm tendência para ter defeitos proporcionais à sua dimensão. É o caso de Helmut Kohl. A 1 de Outubro completam-se trinta anos sobre sua a tomada de posse como chanceler.  Folheie-se a imprensa alemã dos últimos dias, olhe-se para a capa da actual edição da Der Spiegel , e apercebemo-nos que a imprensa se reconciliou com o chanceler.

Hoje Helmut Kohl é uma sombra do homem que foi. Só (a relação com os filhos, negligenciados a favor da política, é muito difícil). Debilitado fisicamente, senta-se numa cadeira de rodas desde uma queda na sequência de um ataque cardíaco, quase não consegue articular um discurso. Apesar de tudo isto ontem comoveu às lágrimas os deputados do seu partido. “A minha pátria é o partido”, disse com visível dificuldade. “A Europa é o nosso futuro. Temos de esquecer os egoísmos nacionais” Depois de uma década sem ser recebido pela fracção parlamentar democrata-cristã Helmut Kohl foi homenageado pela chanceler, Angela Merkel, e pelos parlamentares.

A minha paixão pela Alemanha começou com Kant, foi alimentada por Heinrich Böll, Günter Grass , Hannah Arendt,  pela mão magistral de John Le Carré e por Helmut Kohl.

Tinha 18 anos quando caiu o Muro de Berlim, acabava de entrar para a Faculdade e começava a despertar para a política. Em Portugal vivia-se um período – desinteressante para uma adolescente em transição para a idade adulta – de coabitação relativamente pacífica entre o primeiro-ministro Cavaco Silva e o presidente Mário Soares, fruto da maioria absoluta do “nós somos um rio” – PSD.

As fugas espectaculares ensaiadas pelos alemães da RDA, a marcha da História a Leste, o fim da fractura que partiu em dois um país e um continente, o sopro da liberdade da Glasnost e da Perestroika, incendiavam a minha imaginação.

Nunca tinha ido à Alemanha, sabia que foi no mesmo país em que nasceu Beethoven que se planeou Auschwitz, e que enquanto se exterminavam judeus no Lager, a orquestra de Auschwitz, composta por músicos também eles judeus, tocava todas as manhãs, todos os fins de tarde perto dos portões do campo Schumann, Dvorak, árias de Puccini, Verdi. E tinha de estar disponível para tocar a qualquer hora para os SS com vontade de descontraír ao som de música depois de um dia passado a decidir quem iria ser mandado para as câmaras de gás.

Conhecia a singularidade do Holocausto e os temores que uma Alemanha unida suscitava. Por isso quis perceber o que fazia mover Helmut Kohl, o gigante alemão, a quem os de fora chamavam chanceler da Europa e os dentro durante muitos anos alcunharam “Birne” (pêra).

Quando decidi emigrar para a Alemanha Kohl cruzou-se no meu caminho. Uma das primeiras reportagens que fiz para o “Público” foi o comício de encerramento da campanha eleitoral da CDU em 1998. Na cidade onde havia começado a sua carreira política, Mainz, Helmut Kohl, que já pressentia que sua hora de abandonar o poder havia chegado, fez um discurso admirável, comovente. No final os milhares de militantes que enchiam a Praça da Catedral puseram a mão no peito e cantaram o hino nacional, algo que na Alemanha de então não era “normal”. Despediam-se do patriota, homenageavam o homem que cumpriu o desígnio da reunificação alemã . Uma Alemanha em paz com os seus vizinhos e ancorada na Europa.

Dois dias mais tarde em Bona, a 27 de Setembro de 1998. Silêncio na Konrad-Adenauer-Haus. Um monumento político desce lentamente as escadas. O “chanceler da reunificação” e da Europa, Helmut Kohl, foi derrubado por um promissor político social-democrata, Gerhard Schroeder. A geração de 68 chega ao poder com a promessa de resolver a “Reformstau”, o engarrafamento de reformas, agilizar a economia, modernizar o país e reduzir drasticamente o desemprego. Da promessa restam o abandono da energia nuclear, a primeira lei de imigração na Alemanha  e a reforma do mercado de trabalho. Schroeder e Fischer são agora consultores  milionários.

Desde que Helmut Kohl deixou a chancelaria federal muita coisa se alterou na Alemanha e também na relação difícil que o país tem com um dos seus políticos maiores.

Se a Alemanha do pós-guerra se definisse num número seria o três: Konrad Adenauer, Willy Brandt e Helmut Kohl.

A distância temporal torna os julgamentos menos amargos. O seu inultrapassável instinto político e os ideais de toda a vida – o “Nie Wieder”, nacional-socialismo nunca mais, que o acompanhou no seu percurso político – levaram-no a saber sempre distinguir o acessório do fundamental. E Kohl nunca contemporizou no fundamental. “A essência da questão alemã é a liberdade”, disse-o horas depois da queda do Muro. E, é por isso que os alemães lhe perdoaram tudo: o silêncio mantido até hoje sobre os doadores secretos, o sistema de vassalagem e intrigas instalado no partido.

PS- Parte deste texto tinha sido escrito aqui no blog há dois anos por ocasião dos oitenta anos de Kohl.

Anúncios

4 thoughts on “Helmut Kohl, o ícone

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s