Consegue Eduardo dos Santos dormir descansado?

Luanda tem uma das mais belas baías do mundo, uma beleza de cartão-postal, mas não é isso que me impressiona. O que me impressiona é a cacofonia, o som confuso, caótico, milhões enlatados num espaço que não foi pensado para tantos. Pujança e pobreza. Felicidade e infelicidade. Ostentação e luta pela sobrevivência. A melodia de Luanda é o som colectivo da desordem da Humanidade. Há quem lhe seja insensível.

No dia do aniversário do Presidente angolano, 28 de Agosto, a filha, Isabel dos Santos, deu uma uma entrevista à televisão pública TPA. Bem vestida, bem penteada.A empresária, uma das mulheres mais ricas e poderosas de África, descreveu o pai como alguém “inteligente” e um avô “excepcional”, com muito “afecto pelos netos”. Não dúvido. Como qualquer pai ou mãe, ou qualquer avô, o Presidente deseja a felicidade dos filhos, dos netos.

Das janelas dos palácios do clã presidencial, onde o ar condicionado regula a temperatura e tudo está preparado para evitar surpresas “desagradáveis” como a destituição, o olhar não se alarga até Bengo, Kwanza-Sul, Benguela, Huíla, Namibe, Cunene, Moxico, Bié, Huambo e Zaire. Aí, os milhões do petróleo não chegam e dúvida-se do futuro grandioso de Angola. Quem tem a barriga vazia em que pode acreditar? Aí, denunciam as Nações Unidas, mais de meio milhão de crianças com menos de cinco anos sofrem de grave desnutrição, vidas adiadas antes de começarem. Aí, entre 20 a 22 mil meninos e meninas podem morrer de fome este ano.

O Presidente assiste a isto e chama natural? Como pode dormir descansado e brincar com os netos? E nós quantas vezes ficaremos em silêncio perante a atrocidade? A atrocidade da fome com a máculada crueldade repetida. Amar o outro é ter a capacidade de olhar para o já visto, e nos incomoda, para o já nomeado, e arquivado nos esconsos da memória, como se não o conhecêssemos. Desviar o olhar mata.

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2 thoughts on “Consegue Eduardo dos Santos dormir descansado?

  1. Desde já agradeço as suas reflexões. Deparei-me com o seu blog no facebook e desde então tenho seguido alguns do seus artigos e hoje não consegui deixar de comentar.
    Estive a fazer voluntariado em Angola e entendo perfeitamente o que diz. Tive a oportunidade de trabalhar em Cacuaco, vila pescatória nos arredores de Luanda, e em Calulo no Libolo. A minha vida era tão mais fácil do que a da população porque tinha o apoio da instituição mas para aquelas pessoas, aqueles meninos e meninas com quem trabalhei, de fácil a vida tinha muito pouco, talvez só mesmo o sorriso. Sinceramente a primeira vez que passeia por Luanda Nova, a Luanda dos prédios altos e dos carros de luxo, depois de ter estado seis meses em aldeias rurais senti-me enojada, uma repulsa por aquela recusa em ver a realidade de um país que vai além do petróleo, das minas, dos amigos e dos interesses de alguns mas por certo não de todos os Angolanos.
    As pessoas com quem estive, em geral, não querem falar muito nisso, têm coisas mais urgentes em que pensar, coisas básicas, de primeira necessidade mas que ali são problemas diários. Muitos dos miúdos perderam a esperança e os sonhos e resignam-se a um futuro ao qual pensam não poder escapar. Tenho um caso em especial de um adolescente que devora tudo o se lhe dê para ler, desde rótulos até livros. Têm a curiosidade de quem quer saber mais e conhecer o mundo. Tem o desejo de ser mais e melhor, de ajudar a família e os amigos mas resignou-se porque a mãe morreu, o pai vive longe e ele sabe que não vai poder pagar os estudos e muito menos a “gasosa” (aquele dinheiro extra que faz com que magicamente os entraves desapareçam).
    A escola da aldeia onde estive, tal como tantas outras, é fruto da dedicação de uma instituição privada de solidariedade social, porque nem de longe nem de perto as escola fornecidas pelo governo são suficientes. Naquela escola todos os anos crianças deixam de contar da lista de alunos. Umas porque desistem outras porque simplesmente morrem. Ali as crianças falam da morte de outras crianças com toda a naturalidade do mundo. Nem me falem de estatísticas porque muitas dessas crianças não estavam registadas por isso nem chegaram a existir para o estado.Crianças filhas de pais que também eles não são registados, alguns que não regularizam a sua situação por medos que ainda vêm da guerra. Existiram apenas para as famílias, para os pais que continuam a perder crianças para a malária e a doença do sono, para não falar em outras enfermidades estupidamente facilmente tratáveis no mundo ocidental mas que ali continuam a matar. Naquela localidade existe hospital na cidade mais próxima, uma parceria com o governo cubano (isso é outra coisa que levaria a um longo debate mas é preferível calar-me), o principal problema acabam por ser as distancias e a escassez de meios de transporte. Um hospital muito bem equipado mas sem os técnicos especializados para utilizar muito do equipamento disponível. Naquele hospital em especifico os profissionais,Cubanos e Angolanos, fazem o melhor que podem. Eu fui internada nesse mesmo hospital e pude testemunhar em primeira mão. Não é um daqueles hospitais em que se tem de trazer a roupa, a comida e a medicação por forma a se poder ser tratado.
    Tudo isto não me provocaria tanto repugno se Angola não fosse em si um país rico, se não houvesse quem vivesse com todos e mais alguns luxos conseguidos indevidamente pela exploração das riquezas desse mesmo país. Alguns, para o mal de muitos, esqueceram-se que um país é de todos e que o seu património deveria ser utilizado para o beneficio do todos.
    Não tenho qualquer vinculação politica mas simplesmente não posso ignorar as situações perante as quais sou posta, quando o fizesse deixaria de ser pessoa.

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  2. Ana, muito, mas mesmo muito obrigada pelo seu comentário-testemunho. Apesar de conhecer bem a realidade dos meninos e meninas “invisíveis” comovo-me sempre com cada um. Com cada história de vida cujo desfecho não vai ser feliz. Por ser pessoa como diz, exemplarmente, no seu comentário.

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