Ainda o Profeta

A lógica da espiral é conhecida. Provocação e ódio geram violência, violência cega gera intolerância, intolerância gera provocação e ódio. Estamos a um passo de cair numa ratoeira.

O Islão não se declina em cegueira ideológica, violência e terrorismo,até porque se percebe que as demonstrações de força radicais escondem a fraqueza de que não tem escrúpulos, nem plano, nem Fé. Há uma vida, há corações a pulsar, para além da “rua muçulmana” e do radicalismo, menos conhecida, menos divulgada, menos fotogénica. Há o “outro”, como escreveu o Ryszard Kapuscinski , que é ” o espelho onde me vejo e que me faz perceber quem sou”.

Tudo isto não significa porém que a fúria não tenha de ser condenada, que a barbárie não tenha de ser travada. Com mais determinação e menos diplomacia. Não já justificações para o injustificável. Nem explicações, nem enquadramentos.

Este talvez seja também o momento para reflectir sobre a sacrossanta “liberdade de expressão”. A questão aqui não é o direito de criticar a religião /religiões ou o mau gosto do filme (daria pano para mangas uma discussão sobre o mau gosto na cultura), questão aqui é, e diz respeito a todos que não contemporizam com os totalitarismos (políticos, religiosos, societais, ideológicos), é que esse direito tem limites claros em particular quando se trata incitamento ao ódio , de atiçar violência como no caso do filme Innocence of Muslims .

“Nem Maomé nem Deus precisam que os defendam; o deus que os extremistas veneram tem medo. Não é omnipotente nem confiante, o que prova o quanto eles ignoram a sua religião. Olho para a TV, vejo autoproclamados ‘imãs’ [guias espirituais] a protestar – a atacar, a matar – e pergunto-me: porquê? São eles que insultam o profeta e o seu legado. São eles que insultam o islão! Há milhares de pessoas a morrer diariamente na Síria, numa guerra sectária que envolve sunitas e alauitas (esta sim, é uma ofensa a Deus!), mas não se vêem muçulmanos unidos a insurgir-se nas ruas contra estes massacres. Alguém crê seriamente que Deus precisa de se defender de uma porcaria de um filme?”

A ler no Público (19.09.12 ) no excelente artigo assinado por Margarida Santos Lopes

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5 thoughts on “Ainda o Profeta

  1. Sobre esta questão, Helena, também escrevi dois posts:
    “À espera de um milagre” – onde condeno obviamente os atos, embora compreenda as sensibilidades – e “Humor media” – onde defendo que há mais para além das imagens de extremismo que nos invadem sistematicamente. Não há qualquer problema ou estigma em ser-se muçulmano, o problema é ser-se radical. Como em tudo na vida que roça o extremismo.
    (Gosto muito de a ler e as questões sobre as quais se debruça.) 🙂

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    1. Eu é que agradeço. Tenho por vezes muita pena que não se faça mais reportagem em países muçulmanos para os ver por dentro e não apenas de fora para dentro. Tive experiências excelentes no Egipto ( pré-revolucionário), na Malásia e mesmo em Ramallah. Obrigada pelo seu texto (são estes trabalhos que ainda distinguem o Público dos outros ). Beijinhos para si.

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  2. Boa tarde. Sabia que todos os actos e palavras retratados no filme que “insulta o islão” são retirados dos textos islâmicos mais ortodoxos? Imagino que não pois os media (inclsuivo a Margarida Santos Lopes que é especialista em islão) não o disseram. Sabendo-o agora, isso muda em algo a sua opinião?

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