Alemanha, ai a Alemanha

Estes são os factos: sem ela ou contra ela nada se fazer na Europa. Falo obviamente da Alemanha. De bom grado muitas nações europeias, e não só do sul da Europa, dispensariam esta evolução.

Seria contudo intelectualmente pouco sério não  reconhecer que  a Alemanha é o único país dos Vinte e Sete onde  se trava um verdadeiro debate europeu. A actual Ökonomenstreit (disputa dos economistas),sobre a qual o Tribunal Constitucional terá amanhã  uma palavra decisiva a dizer,  é mais do que um brainstorming intensivo ou uma exercício de debate académico entre economistas pró e contra a moeda única.  Na realidade trata-se de um verdadeiro confronto político que definirá a relação entre a Alemanha e a Europa e por conseguinte o futuro do projecto europeu.

O acórdão de Karlsruhe terá, seja favorável ao MEE ou contra o mesmo, consequências imprevisíveis. Mas não é essa a  análise que me interessa fazer neste momento.  Vai haver críticas à Alemanha, seja qual for a decisão, estou convencida que sim, mas também não  é rebate-las que me interessa neste momento.

A minha proposta é uma reflexão. Exercício que começa com um olhar para Alemanha do lado de dentro e não vê-la apenas do exterior. Até porque para se compreender a política externa de uma nação há que conhecer as suas dinâmicas  internas.

Quando a Cortina de Ferro se esvaneceu na noite mágica de 9 de Novembro a História descongelou, o mapa da Europa alterou-se profundamente e também a Alemanha, agora una e soberana, sofreu um violento processo de transformação.

É bom ter isto em   quando se fala de “egoísmo” ou se esgrimem argumentos de incompreensão pela condução da crise da dívida soberana pela chanceler Angela Merkel.

O impacto da reunificação provocou mudanças tectónicas no sistema político, na economia e na sociologia alemã. Percepcionada do exterior como nação forte e mesmo ameaçadora – acordando nalgumas mentes o receio de um Sonderweg – vista do interior ela é bem mais frágil. A Alemanha da República de Berlim é um país mais pobre, envelhecido e que enfrenta inúmeros problemas sociais, da imigração ao sistema de ensino, mais do que aqueles de que gostaria. Enquanto a República de Bona, assente no modelo do capitalismo renano e da economia social de mercado, tinha um sistema político orientado para o consenso, uma redistribuição equilibrada da riqueza, boas escolas públicas e um excelente sistema de saúde.

Mais: em 1999 a Alemanha era o “paciente europeu”. Entendeu então que precisava de se reformar e fê-lo. Sem se preocupar com as flutuações da opinião pública de curto prazo e empenhado num futuro colectivo melhor para todos, o então chanceler social-democrata, Gerhard Schröder impulsionou a denominada Agenda 2010. As reformas contidas nesta “agenda” –  que abrangeram o maior corte de benefícios e prestações sociais desde a Segunda Guerra, a flexibilização da lei laboral, facilitando os despedimentos, o alargamento da idade da reforma de 65 para 67 anos, redução de subsídios à construção imobiliária, indústria e agricultura, e um acréscimo do investimento no ensino – custaram-lhe a reeleição, mas devolveram ao país a sua vitalidade económica.

 Em suma é sobre os ombros de um país em profunda transformação, que passou por um processo violento de reformas, e que ainda não se encontrou, que a Europa deposita todo peso da liderança. Uma liderança que a Alemanha não sabe se quer assumir e com qual as capitais europeias  tem uma relação bipolar.  Mais do que nunca a Alemanha precisa do apoio dos seus parceiros comunitários. Necessita que estes “arrumem a casa” em matéria de contas públicas – sim a disciplina orçamental é uma virtude aos olhos germânicos – pois só assim  se poderá convencer os contribuintes alemães que não estão a ser assaltados à mão armada – argumento fundamental nas legislativas do próximo ano que Angela Merkel quer vencer-  e precisa e que os outros grandes países dos Vinte e Sete  (que assobiam para o ar à décadas) façam um grande esforço eles próprios para serem mais europeus  e solidários na suas opções. A Europa quer mais Alemanha? Então dê mais Europa à Alemanha.

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