Aqueles dias…

Há dias mãe e outros madrasta.Parada na fila de trânsito concebo planos para fugir para paraísos quentes, desligar o iPhone para sempre, atirar às urtigas o trabalho, converter-me ao budismo. Só não roo as unhas (porque a manicure na Alemanha pratica a tabela de preços da Bang &Olufsen). Revolvo o porta-luvas e encontro metade de um chocolate negro. Que seria de mim sem estes pequenos prazeres a que chamamos, com ligeireza, físicos. Vita Brevis.

Chego à redacção para um dia longo. Tenho à minha espera uma carta do departamento de pessoal. Por obrigação legal pedem-me para confirmar os meus dados pessoais. Nome. Check. Idade. Check. Conta bancária. Check. Estado civil. Solteira. Solteira? Respiro fundo e pego no telefone. “Há um engano quanto ao meu estado civil. Sou casada há x anos e isso está nos meus documentos”. Respondem-me, “pode até estar, mas precisamos de uma certidão de casamento traduzida”. Tento argumentar. “ E o meu passaporte, o meu cartão de identidade não serve?”. “Não, tem de ser uma certidão”. A burocracia é blindada. Valha-me o nome D’Aquele que eu não devia invocar em vão. Excluo a hipótese benigna de entregar a certidão, resta-me reentrar no mundo das solteiras. Vita Brevis.

Ao final do dia, stressante, muito stressante, no fundo do meu espírito jaz o terror daquilo a que eufemisticamente se chama Elternabend (reunião de pais), em vez de “teste de paciência”. Nunca falho uma, por questão de princípio, mas confesso que nalgumas só me vêem à cabeça modos de torturar (com cócegas, entenda-se) certos progenitores. Há casos irremediáveis. A reunião de pais merece preparação prévia, estilo a que se faz para escalar o Aconcágua, e eu podre de cansaço, a desejar aterrar na caminha.

Pois bem, esta quinta-feira era necessário escolher os representantes dos pais, como é habitual no início do ano escolar. É que não sei se estão a ver: na turma da minha filha há vários juristas, logo a votação é um momento soleníssimo. Numa das últimas reuniões decidiu-se que a votação seria secreta e não de braço no ar, depois uma contenda jurídica sobre se a votação destinada a determinar o método de votação seria por braço no ar ou secreta. Confusos? Pois…

Havia dois candidatos, para dois lugares e claro houve duas votações, duas contagens de votos, dois discursos. Ordnung muss sein. E se não fosse a directora da escola a bater à porta e a dizer que tinha de ligar o alarme, ainda lá estaríamos por esta hora. Há de facto dias madrasta. Ohmmm.

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4 thoughts on “Aqueles dias…

  1. Foi mesmo um dia dos tais!
    Essa da burocracia blindada cheira-me a “maozinha” de funcionário português da DW 🙂
    Não sei se por viver num meio mais pequeno (ou se pela região) tenho tido as melhores experiências com os serviços alemães, que têm sempre facilitado (residência, documentos do carro, carta, etc.).
    Até um dia, se calhar 🙂

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