Da coragem

Comprei no aeroporto de Manaus “Não há silêncio que não termine” , o livro de Ingrid Betancourt sobre os 2321 dias como refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Desde que o abri não o consegui pousar mais. Nenhuma imaginação seria suficiente para descrever os quase sete anos de cativeiro da senadora franco-colombiana. Nada nos prepara para esta dor.

Não é preciso conhecer a selva amazónica, paraíso e inferno em simultâneo, nem ter passado pela experiência de um rapto – eu sei do que falo, passei por um em laboratório – para se comover com a vida interrompida, com o sofrimento de um mulher livre, que se vê amarrada a uma árvore com uma coleira de metal, com a dor de uma mãe que de repente deixou de poder ser mãe, de acariciar, ouvir, beijar, celebrar o aniversário dos filhos.

Ingrid não terá sido em cativeiro a heroína que queria ser? Talvez. Mas pergunto-me qual de nós o conseguiria? As inúmeras tentativas de fuga que fez, a recusa em aceitar a lógica desumana das FARC – rejeitando ser apenas um número e a deixar-se instrumentalizar para propaganda –   a capacidade de desenhar planos na exiguidade da esperança e de não ter desertado Deus merecem o meu respeito.

No regime de loucura e fundamentalismo das FARC o humano apaga-se. Sobra a barbárie, a sordidez, a humilhação, a brutalidade e a violência. Os reféns-escravos não tem outro direito que não o de serem escolhidos. Os auto-denominados defensores dos oprimidos não passam de  ignóbeis opressores.

Uma lágrima cai em solidão e silêncio pela minha cara. Por todos os reféns.

 “- Você (Ingrid) está coberta de carrapatos. Depois do banho, você tem de ver isso. Não houve banho, nem naquela noite, nem nas seguintes. Enrique (um dos comandantes das FARC nos embarcou num bongo (barco) três vezes menor que os anteriores. Éramos dez prisioneiros amontoados num espaço de quatro metros quadrados, ao lado do morto, com uma lata de gasolina no meio. Era impossível sentar sem tocarmos a cabeça e as pernas uns dos outros. Enrique deu ordem para que nos colocassem as correntes de forma que cada um ficasse, ao mesmo tempo, preso ao outro e ao barco. Se o barco afundasse, afundaríamos com ele. Enrique jogou sobre nós uma lona pesada, que não nos deixava respirar direito e ainda retinha os gases que vinham do escapamento do motor. O ar se tornou irrespirável. Ele nos obrigou a ficar assim dia e noite. Fazíamos nossas necessidades no rio, nos segurando na lona, diante de todo mundo. Parecíamos vermes a nos contorcer uns sobre os outros numa caixa de fósforos “

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3 thoughts on “Da coragem

  1. Li esse livro e ao mesmo tempo mais dois livros escritos por prisioneiros das FARC. Li o Out of captivity escrito por americanos e um luso americano e li o “Memorias de um cativeiro” escrito por Clara Rojas. Fiquei tambem “grudado” nos livros mas gostei muito de comparar e ler as diferentes formas que cada um desses prisioneiros viveu o tempo em cativeiro. Todos eles revelam na minha opiniao uma grande coragem.

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