Notas breves de Cruzeiro do Sul

1.Do ar tudo verde. Verde a perder de vista.Vertical beleza pontilhada de roxo e de amarelo das flores que ainda sobram nos ipés. Rasgada pelas curvas livres e sensuais das àguas barrentas. Rios aguardando as cheias. Formas sinuosas, como se o universo fosse feito de curvas. Olhar pela janela no longo voo entre Belém e Cruzeiro do Sul – com escala em Manaus, Porto Velho e Rio Branco – é um exercício de poesia visual.

2.Na margem esquerda do Juruá os lápis de cor da natureza declinam-se em tons de verde amazónico, ocre terra, castanho àgua, caramelo areia e azul céu. Cruzeiro do Sul, que pediu emprestado o nome à mais pequena das constelações, é uma cidade de interior, nascida à beira rio e cujo pulsar é em torno da catedral. Surpreendente a catedral, um edifício entre aspas que poderia estar em Bona ou em Aachen. O que faz uma construção de arquitetura alemã aqui*? Lembro-me do Drummond “e a gente viajando na pátria sente saudades da pátria”. A existência é o campo das possibilidades.

3. Sento-me numa esplanada em frente à catedral. Pedi um suco de abacaxi e fiquei a olhar as pessoas com curiosidade, a ouvir as conversas das mesas próximas. Ofereceram-me algodão doce cor-de-rosa comme il faut. Às vezes o presente tem a suavidade de uma memória. Há amigos que nos lêem e conseguem ouvir no nosso silêncio a rotação da terra.

4. Do outro lado da rua, ao lado da improvável catedral, fica a Rádio Verdes Florestas. A razão de estar aqui. Nesta rádio católica que integra a Rede de Notícias da Amazónia, tal como a Rádio Boa Notícia de que já aqui falei, passei uma semana absorvente de trabalho e uma vez mais conheci ser humanos admiráveis. Do Grací, o director da rádio – que também é realizador e técnico quando é preciso – à benjamim da emissora, a Glorinha, passando por D.Mosé, o bispo de Cruzeiro do Sul ( cujo repertório de anedotas sobre portugueses é infindável), todos nos acolheram afetuosamente. Trabalhar assim, não é trabalho é prazer e faz com que discorde de MárioVargas Llosa quando ele diz “um punhado de personagens literários marcou minha vida de maneira mais durável que boa parte dos seres de carne e osso que conheci”. Pelo contrário. As pessoas de carne e osso que tenho conhecido, aquelas, raras, que se recusam a existir nos palcos secundários da vida, são essas pessoas que me fazem acreditar que a vida, sim, vale muito a pena.

* Os últimos bispos de Cruzeiro do Sul foram alemães.

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3 thoughts on “Notas breves de Cruzeiro do Sul

  1. Helena, a boa realidade é sempre, sempre melhor do que a boa ficção ( a propósito dos seres de carne e osso que nos cativam). Já agora, tenho um amigo culto, inteligente, interessante que acha Vargas Losa um chato insuportável. 🙂 Continuação da(s) viagem(ns) e da escrita que nos faz adorar o seu blogue.

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  2. Helena Ferro de Gouveia, é impressionante a forma com que você se refere aos lugares por onde passou. Sua presença em terras brasileiras é sempre momentos de alegria e celebração. Você é uma pessoa observadora e consegue captar os lances de forma suave… A candura do vento, o silencio e o olhar tímido das pessoas parece ter um acordo mútuo com sua presença.
    A suavidade com que você usa as palavras faz com que as coisas tomem um rumo diferente… Lembro-me agora de uma citação de Mahatma Gandhi que diz assim: “Minha vida é um todo indivisível, e todas as minhas atitudes encontram-se umas com as outras; e todas elas se elevam no meu amor insaciável pela humanidade.”
    Parabéns pelo texto

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