Ler a imprensa é perigoso, muito perigoso

Seis e trinta da manhã. Em modo autómato lento, muito lento, procuro pôr em dia os jornais que me sobraram do fim-de-semana. Vou a meio da polémica requentada, no Der Spiegel, da venda de submarinos alemães a Israel. De súbito, algures entre a indignação dos Verdes e as palavras do porta-voz da chanceler, sou desperta do meu torpor. “Mamiiiii. Posso vestir a minha tshirt preferida? Hoje tenho inglês”. Atiro um sim desatento. Nanosegundos depois. “Estou gira?”, olho e leio a toda largura da camisola: “I rule the school”. A minha filha mais nova é um banho de energia, supera qualquer sessão de meditação transcendental na posição de lótus. Ohhhmmmmm.

Consigo ler três parágrafos inteiros. Entre colheradas de muesli lança a pergunta. “Mamiii. Quando for grande posso ser esterilizada?”. Gaspppp. Mãe a entrar em hiperventilação. “Desculpa? Podes explicar-me melhor?”. “ Eu li no Der Spiegel, aquela parte que tu sublinhaste a marcador” – anoto mentalmente, não sublinhar parágrafos sensíveis da imprensa e deixar ao alcance da espertalhona de nove anos … – “ que parte?”, “ onde se dizia que o excesso populacional ameaça o planeta e tu sabes que eu sou ambientalista”. AIVALHA-MEDEUS. Coerência não lhe falta, inteligência também não.

Esta vai ser uma conversa longa. Os manuais parentais são omissos sobre o modo correcto de abordar o tema esterilização. Tento uma abordagem clássica. Explico à wwfiana em gestação que o elevado número de habitantes do planeta se deve a muitos factores, entre eles factores culturais. Faço uma breve exposição sobre a relação entre o número de filhos e a pobreza nos países menos desenvolvidos. “Mas Mami não é o Papa que diz os preservativos são um pecado?”. Oh boy! Tento a evasiva. “ Bem ainda és um bocadinho nova para conversarmos sobre essa questão, que é complicada”. “Porquê?”. A Matilde não se deixa desarmar facilmente. “Não precisas de me explicar nada sobre sexo porque eu já li no livro da mana, eu só queria mesmo saber se posso ser esterilizada”. Durante breves segundos passa-me pela cabeça que alguns miúdos – a minha incluída – deviam passar directamente da fase das fraldas para a faculdade. Em desespero resta-me a abordagem maquiavélica. “Sabes que uma operação tem riscos, é preciso tirar sangue, fazer análises e faz-se com anestesia geral”. “São precisas muitas agulhas?”. Touché. “São querida”. Imperturbável respondeu: “ok, então vou estudar baleias para o Alasca como a tia”.

PS- Os posts sobre a Merkel que muitos me têm pedido sairão em breve.

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