Tudo tão previsível…

Como actores num clássico bem ensaiado, os políticos portugueses, a União Europeia e as Nações Unidas têm repetido o catecismo do regresso “à ordem constitucional na Guiné-Bissau”. Não podia estar mais de acordo. O que eu ainda não ouvi ainda ninguém dizer é até onde se está disposto a ir para que tal suceda.

Houvesse a mais leve intenção de resolver a crise guineense há uma coisa evidente que se podia fazer: estacionar um contingente das Nações Unidas no país, com um mandato robusto e deter todos os envolvidos –  militares, políticos, civis, jagunços –  nos golpes e violências dos últimos anos. Numa frase: pôr fim à impunidade.

Estarrecedor é que, uma vez mais, aos olhos de todos se formou a tempestade perfeita em Bissau, sem que ninguém se tenha detido a analisar a sua seriedade e consequências. A sublevação militar em Bissau era evidente, estavam lá os sinais todos, os serviços de inteligência alertaram, Luanda, sabia, Lisboa sabia, Paris sabia, as Nações Unidas sabiam, até o próprio Carlos Gomes Júnior, o primeiro-ministro deposto e candidato presidencial, reconheceu numa entrevista dada ao DN que tinha conhecimento que um golpe de Estado estaria a ser forjado.

Pergunto-me porque é que a CPLP se mostrou, é um déjà vu, impotente para a agir a tempo e com a determinação suficiente quer para travar o golpe, quer para evitar esse absurdo que é o “governo de transição” legitimado pela CEDEAO, sob a batuta da Nigéria, país com um registo de violações dos direitos humanos mais tóxico do que o delta do Níger?

Assistimos à surreal situação da Guiné-Bissau ser, desde esta semana, um país com dois Governos. Um de jure, legítimo, eleito, e no exterior do país, outro, no interior, “de transição”. A pergunta que se impõe e a que ainda ninguém respondeu é “transição” para quê? E as tropas da CEDEAO que já chegaram ao país vão incumbidas de que missão? Reformar as Forças Armadas? Deixem-me rir. Garantir a segurança e estabilidade no país? Não é preciso perder mais do que alguns minutos no Gooogle para se descobrir relatos de abusos cometidos por militares oriundos de países da CEDEAO. Para tornar a situação ainda mais complexa a MISSANG ainda não se retirou do país. Angola e Nigéria enfrentam-se na Guiné pela influência na região da África Ocidental.

Em Bissau avolumam-se os rumores, tão comuns como os abutres, que um contra-golpe, organizado pelo PAIGC possa estar a estar preparado. Não quero ser Cassandra, mas a acontecer seria um banho de sangue.

A actual crise que se vive na Guiné, não obstante o discurso do regresso “normalidade”, é gravíssima. Quem se interessa um pouco por história africana sabe que as Libérias do continente se fizeram de uma combinação de ingredientes: anarquia, etnicidade, impunidade, crime organizado. Estão lá todos.

Que Deus  e os irans protejam a minha Guiné.

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