Haja lã

Quando era criança fazer tricô era uma cerimónia familiar. Sentada numa cadeira de balouço centenária ia desenrolando, a contragosto porque sempre preferi esfolar os joelhos, os novelos coloridos sob o olhar atento e rigoroso da D. Claudina, que, com a sua compostura e devoção às artes do lar, sem ser uma Fräulein de verdade, era uma versão portuguesa muito verossímil. Do malabarismo das minhas agulhas saíam obras imperfeitas. Tão imperfeitas e menores por comparação que as agulhas foram postas de lado e a cadeira de balanço se tornou no meu lugar preferido de leitura.

Lembrei-me disto porque ao fazer as leituras diárias na internet me deparei com um mistério que está a encantar os britânicos. Na pequena localidade de Saltburn-by-the-Sea alguém transformou o cais local numa homenagem aos jogos olímpicos de Londres. A ou os tricotadores desconhecidos – o Yarn Bombing, movimento nasceu nos Estados Unidos, where else, em 2005, vive do efeito surpresa – tornaram mais bonito o cais, os dias do moradores e a mim libertaram-me do trauma do tricô matemático, clássico, provando-me que de duas agulhas pode sair uma história com personagens lá dentro. Haja lã.

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