Cada um descobre o seu anjo, tendo um caso com o demónio

Enfeitam os pulsos com argolas. Variantes de jóias de verdade, elas transportam o doce gosto do fingimento. É a nova moda entre as meninas moçambicanas.

Como pássaros chilreantes passeiam numa rua de Manica. Cinco raparigas. Ivete é uma delas. Veste o uniforme escolar e trás às costas uma mochila. No pulso esquerdo brilham as pulseiras.”Agora, tornou-se moda andar com estas pulseiras entre as meninas. Veja que no meu grupo só ela não tem. O que me encanta é o brilho que isso tem quanto mais molhas no banho”, diz. Os aros nos braços das meninas não são nada mais do que argolas de preservativos femininos. Cada um descobre o seu anjo, tendo um caso com o demónio, escreve Mia Couto.

A moda de uso de argolas de preservativos femininos entre as raparigas, nas províncias de Sofala e Manica, centro de Moçambique, tem vindo a preocupar as autoridades de saúde, que considera que a  “onda das pulseiras” pode comprometer esforços na luta contra a propagação do HIV-SIDA.  Não raras vezes, nas ruas de Chimoio e da Beira, vêem-se raparigas com seis a oito “pulseiras” no braço. Cada preservativo feminino tem duas argolas, mas apenas a inferior é aproveitada como “pulseira”.

As argolas, geralmente, são retiradas de preservativos femininos de distribuição gratuita, disponíveis em várias instituições públicas e privadas o que tem levado ultimamente à escassez deste produto.

Nas clínicas privadas, um preservativo feminino custa em média 70 meticais (1,94 euros). “Ficámos muito alegres quando começámos a ver os cestos de preservativo feminino vazar, pois achámos que as mulheres já estavam realmente a usar. Mas ficámos estupefactos quando soubemos que são desviados para serem usados como pulseiras“, disse à Lusa Aarão Uaquiço, coordenador do Núcleo Provincial de Combate à SIDA (NPCS) de Manica.

A moda tem levado a que alguns jovens desenvolvam negócios com a venda das argolas dos preservativos. Cada argola custa cinco meticais (0,14 euros) e o que não tem faltado são as clientes .

PS – Em Moçambique, 11,5 por cento da população entre os 11 e os 49 anos está infectada pelo VIH/SIDA, revela o primeiro Inquérito Nacional de Prevalência, Riscos Comportamentais e Informação sobre o VIH/SIDA em Moçambique (INSIDA)


One thought on “Cada um descobre o seu anjo, tendo um caso com o demónio

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s