Muiraquitã

Ofereceram-me um Muiraquitã, amuleto verde em forma de sapo, usado há vários séculos pelas mulheres da Baixa Amazónia, ao qual se atribui propriedades mágicas e terapêuticas. Como as coisas mais preciosas o Muiraquitã não pode ser comprado, pois a sua magia só funciona se este for um presente.

Os primeiros Muiriquitãs foram descobertos nas proximidades dos rios Nhamundá e Tapajós, nos séculos XVII e XVIII quando a colonização da Amazónia dava os primeiros passos. Portugueses e espanhóis descobriram-nos. Humboldt refere-os. Os museus disputam-nos.

O Muiraquitã serve todos os sentidos. Luxuriante nos seus tons de jade verde. Enigmático, porque encerra uma lenda de amor livre, felino, intenso e imaterial entre as índias Icamiabas, mulheres guerreiras a que os europeus chamaram Amazonas, e os índios Guacaris.

Conto a lenda em breves palavras. Na nascente do rio Jamundá há um lago, Iaciuaruá (que quer dizer espelho de lua), consagrado à lua. Era nesse lago, em noite de lua cheia, que as índias Icamiabas (tribo de índias belíssimas descritas por Frei Gaspar de Carvajal, em 1541, como guerreiras exímias e altivas, que lutavam nuas usando apenas arco e flechas) mergulhavam, uma vez por ano, para receber das mãos da lua os Muiriquitãs. Os amuletos eram então entregues aos guacaris que as índias escolhiam como amante por uma só noite, desde que inesquecível. Gosto de pensar que esse sábio do amor que é Vinicius de Moraes pode ter-se inspirado na lenda do Muiriquitã para escrever as linhas mais conhecidas do “Soneto da Fidelidade”: “Que não seja imortal, posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure”.

Um dos muitos prazeres que nos concedem as viagens é o de descobrir “estórias” como esta. Uma lenda sobre a insubmissão das mulheres, sobre a sua capacidade de aventura e sobre a crueldade, porque as Icamiabas eram de uma ferocidade intimidante, capazes, diz a lenda, de matar os próprios filhos se nascessem homens ( há uma versão mais suave da lenda que diz que as índias entregavam os varões ao cuidado dos pais conservando apenas os bebés do sexo feminino).

Adenda: com a velocidade a que escrevi o texto esqueci-me de mencionar um “pormaior” : a Amazónia deve o seu nome às índias Icamiabas.

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3 thoughts on “Muiraquitã

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