Santarém, o encantamento – Dia 1

Da Catedral de Nossa Senhora da Conceição, pintada de anil vivo, leve como a vida, até à margem do Tapajós, verde cristalino, são uns poucos passos.

Santarém, a segunda cidade do Pará, nasceu aqui, em torno da Catedral erguida sobre um cemitério de índios Tapaiús, coisa de colonos como se a história da Amazónia começasse neles. Casario nobre, de beleza quebrada, e casebres de má arquitectura estendem-se voltados para as águas.

De havaianas e calção curto, famílias com filhos, namorados e grupos de adolescentes passeiam-se na frente ribeirinha de restaurantes e botecos, comentando as inundações e deliciando-se com o sol quente que escorre numa carícia e se faz raro em época de chuva. Muitos sentam-se nas esplanadas saboreando suco de taperebá, de graviola, de muruci. Pescadores amadores desafiam a sorte. Aposta não arriscada num rio onde se vêem peixes brilhantes como lâminas de aço a saltar e os botos, golfinhos cor-de-rosa, se aproximam da margem como animais treinados num zoológico divino.

Entro na pequena lancha a balançar. Primeiro um pé, depois outro. Sou a única passageira a bordo. Ali ao lado, na balsa de um pescador uma garça grácil estende o pescoço. Começamos a navegar. Pedi para passar perto do porto da multinacional norte-americana Cargill. De um silo enorme são descarregadas toneladas de soja para um cargueiro. Cada uma destas toneladas, que serão transportadas para portos europeus, custou um pedaço de floresta amazónica. Por cima da lancha planam urubus (abutres). São abundantes na Amazónia.

Deslizamos. Risco branco de espuma em superfície verde. Perco a rede e a internet do iPhone. À minha frente às águas esmeralda do Tapajós abraçam as barrentas do Amazonas. Planície de água a perder de vista e um céu de azul mais-que-perfeito polvilhado de nuvens de algodão. Mergulho uma mão. A água está quente. Descalço-me e ponho os dois pés na água. “Tem a certeza que não quer nadar?”, pergunta-me o marinheiro. “É seguro”. Passam-me pela cabeça um conjunto de bons, e nada lendários, motivos para declinar: jacarés (acabaria por ver um lá para o final da tarde), candirus, piranhas e sucuris. O Amazonas é o meu Ganges, mas ainda não estou preparada para imergir ele.

Seguimos viagem, aqui e ali umas vitórias régias, as estrelas da água. Magníficas. Entramos num igarapé, um braço longo de rio,  a lancha desenha “êsses” por entre as copas das árvores meias submersas. “Veja ali”. Olho e descubro entre a folhagem da floresta aquática um camaleão. Se isto não é um bom sinal, o que será? Em terra de mandingueiras e xamanes, onde existem ervas, cipós e poções mágicas para tudo, aprendi a observar os sinais.

Quando estive pela primeira vez na Amazónia disseram-me “se comeres pirarucu, voltarás sempre”. Numa comunidade ribeirinha, a duas horas de barco de Manaus, o pirarucu, um fóssil vivo que é um dos maiores peixes de água doce do mundo, podendo atingir duzentos quilos, entrou na minha vida com dendê, pimenta do reino, leite de coco e uma caipirinha. Isto foi há um mês atrás.

Regressamos ao cais. A luz dourada do poente pousa sobre Santarém, a cidade imperfeita do Pará – onde a vida é duríssima, cortante como uma rocha afiada, como viria a testemunhar mais tarde, mas não nos adiantemos – e reflecte-se na água. É um daqueles instantes sublimes, ou uma daquelas bênçãos, em que o tempo parece suspenso e não cabem em prosa, encerram um poema.

Santarém, Pará, Maio 2012

PS-Logo que a internet o permita colocarei  mais fotos.

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9 thoughts on “Santarém, o encantamento – Dia 1

  1. O texto transporta-nos para a Amazónia e quase se ouve o deslizar da barcaça nas águas….
    E a fotografia é absolutamente mágica !
    É um privilégio que compartilhe essa vivência connosco.
    Parabéns & obrigado
    judite

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