Até já

Nem sei muito bem quando cheguei. Entre a última viagem e esta houve um golpe de Estado, a primeira comunhão (da mais nova), um crisma (da mais velha) e casa repleta de amigos e de familiares. Houve tempo para explorar o rio largo da memória e conversar bebericando cerveja gelada, num copo embaciado como os olhos. Na máquina trituradora dos dias o blog foi o parente negligenciado, alimentado abruptamente por palavras escritas por outros. Já me tinham avisado: “tem cuidado, África ( e a Guiné) não são lugar para emoções” . Discordo.

Olho para a agenda vejo próxima partida  ao dobrar dos dias. Um pulinho e regresso à Amazónia. Até já

Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga, Viagem


3 thoughts on “Até já

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