Nada é simples

Um rio não passa duas vezes pelo mesmo local? Passa, passa pelo menos na Guiné.

A presente sublevação militar repete a papel químico anteriores golpes. Recapitulemos. Apesar dos sinais evidentes que se avolumavam – da tensão palpável, alimentada pela irresponsabilidade de alguns candidatos presidenciais, que se deixaram iludir pela flauta de Hamelin de Kumba Ialá – ninguém a antecipou. Uma vez mais a Guiné-Bissau está refém dos militares. Uma vez mais se decapitou o poder político, uma vez se recorre a um “governo de transição” e se querem agendar eleições. As regras processuais das eleições foram rapidamente compreendidas na Guiné, o problema é que não foram acompanhadas da compreensão do que significa democracia.

É de estarrecer que em pleno processo eleitoral – a segunda volta das presidenciais deveria ter lugar dia 29 de Abril – haja partidos da oposição guineense aceitar um golpe de Estado, a legitimá-lo, a aceitar uma “solução não constitucional”, para em seguida pedir que se regresse à “normalidade constitucional”, passando claro uma borracha sobre as eleições de Março pagas pela comunidade internacional. Ávidos que estão de chegar ao poder alguns políticos da oposição guineense têm a veleidade de acreditar que não serão marionetas descartáveis nas mãos dos militares. Não estou com isto a tentar excluir o PAIGC, o partido da independência, das imensas responsabilidades que no naufrágio da Guiné. A perseguição com tortura acompanhada de matança de adversários, assim como o abuso de poder, o nepotismo e a corrupção foi uma prática comum no PAIGC desde 1974, aperfeiçoada por Nino Vieira.

Recorrente neste golpe de Estado é o argumento usado pelas Forças Armadas: ameaça externa, neste caso a presença da Missang. A memória da presença de soldados senegaleses e da Guiné-Conacri e as atrocidades por eles cometidas durante a guerra civil de 98-99 está bem viva e colhe junto de algumas formações partidárias. A diferença substancial neste caso é que os angolanos foram convidados e estavam empenhados no processo de reforma das Forças Armadas guineenses.

Chamemos as coisas pelos nomes: as Forças Armadas guineenses, estão-se a ralar para o bem da nação guineense, a sua única e exclusiva preocupação são os seus negócios: o tráfico de armas – na Guiné é possível comprar com facilidade, por pouco menos de 70 euros, armas artesanais de estilo AK47 – e de estupefacientes. Seis carregamentos de cocaína, segundo uma estimativa das Nações Unidas, equivalem ao PIB guineense.

A Guiné está na beira do abismo e parece querer saltar voluntariamente. O que há para além do abismo? É essa a questão de fundo.

Bissau, 15 abr (Lusa) – Os partidos políticos da oposição na Guiné-Bissau decidiram criar um Conselho Nacional de Transição, que irá depois escolher um Presidente e um primeiro-ministro de transição, até à realização de eleições.

Depois de uma reunião que começou de manhã e que só terminou ao anoitecer, o porta-voz dos partidos, Fernando Vaz, disse que na segunda-feira será discutida e aprovada uma Carta de Transição, na qual se define o número de pessoas que esse Conselho terá, o tempo de duração da transição e quem será o Presidente e o primeiro-ministro.

“A criação do Conselho Nacional de Transição implica a dissolução do Parlamento”, disse Fernando Vaz, admitindo que tudo será concluído já na segunda-feira.

Na reunião, na qual não participou “o PAIGC de Carlos Gomes Júnior” mas sim outros elementos do maior partido, disse Fernando Vaz, foi decidido criar ainda duas outras comissões, uma Comissão de Gestão de situações de emergência, como para manter, por exemplo, o fornecimento de água e luz, e uma Comissão para a Diplomacia.

É essa Comissão para a Diplomacia que na segunda-feira, em conjunto com os militares, se vai encontrar com uma missão da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental), que chegará a Bissau para debater o golpe de Estado de quinta-feira passada.

Fernando Vaz criticou a ameaça de sanções contra militares e políticos, vinda nomeadamente dos países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), afirmando que quando foi morto um Presidente eleito “esses países condenaram e não fizeram nada”.

“Hoje entendemos perfeitamente o porquê desta posição de ‘revanche’ (vingança). Quando se discute internamente e se procura uma solução, externamente propõe-se a guerra contra a Guiné-Bissau, propõe-se uma atitude de violência contra a Guiné-Bissau. Acreditamos nos guineenses e estamos aqui à procura de uma via pacífica, uma solução por forma a resolver esta questão do golpe de Estado”, disse Fernando Vaz.

O porta-voz também comentou o envio de forças de Portugal para resgatar, caso necessário, os cidadãos portugueses, afirmando que a Guiné-Bissau é um país soberano, que manda nas suas águas e que os portugueses só entram “se forem autorizados”.

Fernando Vaz admitiu que a solução encontrada “não é constitucional”, porque havia duas propostas “mas ganhou a que não passava pela via constitucional”, com 16 votos contra e sete a favor.

A solução, disse, não agradou a alguns partidos, que decidiram abandonar a reunião. O porta-voz acrescentou ainda que não tem informações sobre o paradeiro do Presidente interino e do primeiro-ministro.

E comentou o encerramento das rádios privadas pelo Comando Militar assim: “As rádios estão a ser aproveitadas para virar o povo da Guiné contra um 25 de Abril que se faz, como se fez em Portugal. O que queremos é a renovação da democracia e a consolidação da democracia”.

Ainda assim admitiu estar contra o encerramento das rádios e propôs-se como intermediário entre jornalistas e militares para resolver a situação.

No sábado, um conselho de ministros extraordinário da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) decidiu “tomar a iniciativa” de propor “uma força de interposição para a Guiné-Bissau, com mandato definido pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas”.

No comunicado final da reunião, a CPLP referiu que a proposta de criação de uma “força de interposição” será feita “em articulação com a CEDEAO [Comunidade Económica dos Países de África Ocidental], a União Africana e a União Europeia”.

Hoje, a Força de Reação Imediata (FRI) das Forças Armadas portuguesas, composta por uma fragata, uma corveta e um avião P-3 Orion, partiu ao início da tarde para a Guiné-Bissau.

Fonte oficial do Ministério da Defesa afirmou à Lusa que os militares portugueses não têm qualquer operação definida para já e que esta decisão acontece na sequência do aumento do nível de prontidão da FRI.

FP. (SBR/ATF)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s