Brincar à roleta russa na Guiné-Bissau

O que se vive na Guiné-Bissau, apesar da aparente reposição da ordem democrática, depois do golpe de Estado de 1 de Abril de 2010 e do golpe falhado de 26 de Dezembro de 2011, é tudo menos normalidade. Olhando para as páginas da imprensa portuguesa, de onde o país desapareceu, ninguém parece dar por isso. Adiante.

Coincidindo com a visita do ministro angolano dos Negócios Estrangeiros, Georges Chicoti, a Bissau, as Forças Armadas guineenses convocaram hoje uma conferência de imprensa anunciando a retirada da MISSANG, a missão militar angolana na Guiné-Bissau. Declarações que não foram confirmadas por Luanda* até ao momento e que contrariam as feitas pelo governo guineense na quarta-feira passada (04.04).

Na semana passada o executivo guineense afirmou a sua “firme determinação” não só em manter a MISSANG no país, como também em reforçá-la. Garantiu ainda que a presença da missão militar reflecte a vontade dos executivos guineense e angolano. De acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau, Mamadu Saliu Djaló Pires, seria “grave” se a missão angolana chegasse ao fim.

Embora sejam conhecidas as razões formais por detrás desta tomada de posição dos militares guineenses – o armamento detido pelos militares angolanos na Guiné, que as FA guineenses sentem, por um lado, como uma ameaça e, por outro, gostariam de vir a receber, e uma eventual ofensa ao chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, general António Indjai. O embaixador angolano em Bissau, general Feliciano dos Santos, ter-lhe-á perguntado se estaria a forjar um golpe de Estado, visto Angola ter informações nesse sentido – não foram apresentadas razões substantivas.

A confirmar-se o afastamento dos militares angolanos, que apesar de inúmeras críticas que lhe podem ser feitas têm sido o garante de alguma estabilidade no país, a Guiné mergulharia numa nova espiral de incerteza. Carlos Gomes Júnior escapou ileso à mais recente tentativa de golpe de Estado em Dezembro de 2011 graças à protecção angolana. Sem a guarda pretoriana angolana por perto são muitos os que na Guiné acreditam que o líder do PAIGC vive no fio da navalha. Pode Carlos Gomes Júnior, com grande probabilidade o próximo Presidente, coabitar com  António Indjai, um homem que o ameaçou de morte? Quem mais beneficia com a fragmentação e instabilidade da Guiné-Bissau? Divide et impera. A resposta parece-me óbvia.

Os militares tomaram definitivamente o Estado guineense como refém? Até hoje, nenhum presidente da Guiné-Bissau completou o seu mandato constitucional de 5 anos. E em 9 anos, 3 chefes de Estado Maior foram assassinados. Os motivos exactos dos assassinatos de Março de 2009  – Nino e  Tagmé – e de Junho de 2009- Baciro Dabó e Hélder Proença –   e os respectivos culpados  continuam por identificar, o que reflecte a incapacidade do sistema judicial e a impunidade generalizada que grassa na Guiné-Bissau.

Como se este braço de ferro entre políticos e militares não fosse suficiente, no plano político mantém-se o impasse. Este fim-de-semana o Supremo Tribunal de Justiça indeferiu o pedido de nulidade das presidenciais apresentado por cinco candidatos às presidenciais. As queixas foram apresentadas pelos candidatos Serifo Nhamadjo, Kumba Ialá, Henrique Rosa, Afonso Té e Serifo Baldé, que não reconhecem os resultados que deram a vitória a Carlos Gomes Júnior. Kumba Ialá, que ficou em segundo lugar, recusa-se a ir à segunda volta das presidenciais.

Adenda:* Luanda entretanto confirmou a saída da Missang da Guiné-Bissau

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