A propósito de Grass lembrei-me de Fest

Se é possível falar de um “quinto poder”, um poder intelectual na Alemanha, então o escritor Günter Grass e o historiador Joachim Fest [entretanto falecido] são dois dos seus representantes mais influentes. Ambos da geração dos Flakhelfer – que designa os alemães que na adolescência foram chamados a entrar numa guerra perdida – Grass, o ídolo eloquente, turbulento e moralista da esquerda, e Fest, o austero analítico conservador, encarnaram ao longo de décadas pólos políticos opostos. No Outono de 2006 ambos decidiram contar como se tornaram naquilo que são.

Grass fez da sua confissão – ter sido do soldado das Waffen SS aos 17 anos – uma encenação estética. Fest pediu emprestado o título da sua autobiografia a uma passagem do Evangelho de São Mateus, Etiam si omnes – ego non (“mesmo que todos colaborem, eu não”). Naquele Outono de 2006, não podia haver título mais provocador para um livro de memórias.

Grass pertence à geração de jovens homens formados pela propaganda de Goebbels e deslumbrados pelo nacional-socialismo. Em Descascando a Cebola, o Nobel da Literatura quebrou finalmente um silêncio de 60 anos e, para desilusão da esquerda, justifica-se com a cegueira ideológica comunitária, com a abnegação à causa nacional. Como se não houvesse outra via.

Eu Não, a biografia de Joachim Fest editada pela Rowohlt, foi considerada pela crítica como uma sensação. Insuspeita de grande simpatia pelo grande pensador católico e conservador, a Der Spiegel escreve: “Faz bem ler o livro de Fest, em particular neste Outono. É estilisticamente elegante e não como uma cebola que tem de ser descascada e descascada para no final enganar os leitores quanto ao núcleo.”

 Em 304 páginas, escritas de forma clara e sem a névoa em que Günter Grass envolveu os anos da sua juventude, Fest conta o quotidiano numa família resistente ao regime. O seu pai é um republicano militante, um prussiano convicto, erudito e profundamente católico que lutou ao lado dos sociais-democratas contra a ascensão dos nazis. Logo em 1933 a família Fest conhece as represálias contra os não alinhados. O pai é afastado do seu posto como director de uma escola, é proibido de dar explicações e a família burguesa perde privilégios. É por esta altura que os contestatários do regime começam a aparecer mortos. Com o pai, Fest aprende a ser fiel a si próprio e a assimila a coragem para não se acomodar.

 “Não somos pequenos. Pelo menos não nessas questões.”

 Um dos momentos mais expressivos das memórias de Fest é um episódio do início de 1936. Fest, então com nove anos, e o seu irmão Wolfgang ouvem uma rara altercação entre os pais. A mãe, no fim das forças face às adversidades, procura convencer o pai a filiar-se ao NSDAP. “É só uma inscrição, nada mais: Nós permanecemos os mesmos”, argumenta. Sem compasso de espera o pai responde: “Iria mudar tudo.” A mãe alega que a hipocrisia sempre foi um meio dos pequenos se defenderem dos poderosos. O pai diz simplesmente: “Não somos pequenos. Pelo menos não nessas questões.” Etiam si omnes – ego non.

 As questões de consciência com se confrontou um impotente pai de cinco filhos ilustram a situação vivida por muitos alemães em 1933. Houve os que optaram pelas represálias e os que viram a acomodação como um mal menor.

Apesar da proximidade que os unia, pai e filho enfrentaram-se. A decisão de Fest de se alistar na Luftwaffe, a força aérea, para evitar a convocatória para as Waffen SS provoca a ira do pai. “Ninguém se apresenta como voluntário para a guerra criminosa de Hitler.” No final da guerra, pai e filho retomam o tema. “Não estavas de todo errado, mas eu que estava certo”, afirma o pai.

Com este livro, um consequente prosseguimento da sua vida e obra – Fest é autor de uma brilhante biografia de Hitler, referência para todos os estudiosos do período nacional-socialista, e também do livro em que se baseou o filme sobre os últimos dias do ditador, Der Untergang (A Queda) -, o historiador pôs um fim definitivo ao confortável mito alemão do Nicht-gewusst-Haben, não sabia de nada, e do Nicht-anders-gekonnt-Haben, não podia ter agido de outra forma.

PS- 1. Eduardo Prado Coelho respondendo  à pergunta de  Saramago -” e o resto da vida não conta?”- escreveu o seguinte:

“Günter Grass não foi apenas um escritor, tem sido também um intelectual, e que intelectual! Ele pretendeu ser uma espécie de consciência alemã apoiada no dever da memória. Não se deve recalcar, deve-se assumir um passado vergonhoso. E este aspecto de intelectual ajusta-se com dificuldade ao seu percurso pessoal: o de um segredo com que conscientemente se vive ao longo de quase uma existência. É claro que o resto da vida conta, mas conta negativamente. E a questão da qualidade da sua escrita e da composição das suas ficções não está aqui em causa.”

2. Este texto é uma adaptação de um texto escrito para o Público em 2006.

3. Pode-se criticar Israel? Pode e são os israelitas os primeiros a faze-lo. Não há nada que não tenha sido dito em Israel sobre o seu programa nuclear, o escritor está longe de ser sequer “corajoso”, nem mesmo na Alemanha criticar Israel é um interdito social, agora não é preciso evocar Freud e o seu divã para perceber que o poema de Grass canalisa para o Estado um anti-semitismo latente nele e em muita da esquerda germânica. O Nobel devia ter vergonha. Muita.

4. Entretanto Grass compara Israel às ditaduras. Ohmmm

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