Postal da Amazónia


Deixei Bissau para trás e nestes idos de Março rumei bem pertinho ao Equador, ao lugar onde a água de seda do Rio Negro se encontra com o caudal barrento do Solimões. Durante quilómetros as águas de ambos correm lado a lado, em paralelo sem se misturarem, como um casal de amantes zangado, até se entrelaçarem formado o rio dos rios, o Amazonas. De um lado e de outro o olhar desliza pela selva esmeralda e compacta.

É um privilégio e simultaneamente a realização de um sonho poder estar em Manaus a trabalhar com a Rede de Notícias da Amazónia, uma associação de rádios católicas, que faz da defesa da Amazónia, dos seus povos e culturas, uma luta diária.

Espalhada pelo imenso território amazónico, de Cruzeiro do Sul a Santarém, a rede denuncia o tráfico de meninas para a prostituição, a biopirataria, ou seja o comércio ilegal de plantas e animais, como os peixes que seguem de Barcelos – sim Barcelos, na Amazónia, há também Viseu, Óbidos, Bragança e Alter de Chão – para o Japão.

A rede abraça um jornalismo de causa, não contra o “progresso, mas contra o que é predatório”. Vai ao rubro o duelo entre dois modelos: “o capitalista desenvolvimentista” – da soja, dos madeireiros, dos criadores de gado e das barragens – e “o ecológico” – que admite o uso da floresta sem a destruir. Não é difícil identificar-me com a causa. Não há uma corrida ao “ouro” na Amazónia, há muitas. Lula desiludiu, Dilma desilude.

Conversando com estas mulheres e homens, jornalistas e directores da rede – alguns padres herdeiros da teologia da libertação, outros sacerdotes bem mais ortodoxos – descobri uma Amazónia complexa, fascinante, cheia de heróis desconhecidos, que navegam rios e igarapés, em barcos de madeira até lugares onde os aviões não chegam as estradas são uma quimera, para alfabetizar ou prestar cuidados de saúde aos ingarikó, munduruku, uapixana, entre tantos outros povos indígenas.

Vista de perto, a Amazónia é uma espécie de última página do Genésis, de uma beleza arrepiante, com plantas e árvores de nomes exóticos – moela de mutum, amor-crescido, quebra-pedra, amapá, manejo – com onças, jacarés, sucuris, surucucus e insectos de todas as formas e cores. E com pessoas com aquele jeitinho gostoso de dar um carinho só por simpatia. Ainda não parti, mas já sei que quero voltar.

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7 thoughts on “Postal da Amazónia

  1. Belo post, gostei muito.
    Tem razão, não é difícil identificarmo-nos com uma causa, especialmente num sítio desses.
    Continuação de bom trabalho e boa viagem
    Cumprimento da Frísia 🙂

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  2. Belissimo.
    Deve ser realmente um privilégio « sentir » um lugar como esse,onde,apesar da devassa,a natureza teima em vingar.
    Ainda bem que assim é.
    Bom trabalho.A causa é meritória.

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  3. Que belíssimo post, Helena. É muito interessante seguir as suas viagens, acompanhar essas emoções e vê-las através da sua excelente escrita e bonitos postais. Um pouco de National Geographic que nos leva a explorar outras possibilidades:) Extraordinariamente enriquecedor.
    Este posts da Amazónia lembraram-me do filme A Selva, de Leonel Vieira, que adorei. Continuação da sua aventura pela vida*****

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    1. Então jaa onde anda o espírito cristão? : D
      Pense no calor, na humidade, nos insectos, nas piranhas, nas sucuris …
      Agora a sério: se tiver oportunidade meta-se num avião e venha à Amazónia, nenhuma descrição lhe faz justiça.

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  4. senti-me virtualmente nessas paragens e do mesmo lado, falando de causas, em que esteve a Helena.

    Farei os possíveis para visitar um dia.

    Bem-haja

    Veríssimo Dias

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