Hoje não houve chocos

Busto de Amílcar Cabral, Bissau 2012

Quero contar-vos uma história africana. Se as histórias têm princípio esta começa no busto de Cabral. Não o Pedro, mas o Amílcar. O primeiro procurava a Índia e fugindo dos ventos alísios, por puro acaso, descobriu o Brasil. Erro fecundo. O segundo procurava um país, cujo nome paterno não fosse Escravo e criou uma ficção. Erro trágico.

Poucas visões serão tão fantásticas e premonitórias, como a do busto mal-tratado, empoeirado, de Amílcar Cabral, de costas voltadas para a Avenida que traz o seu nome, em Bissau. Amílcar e a Guiné? Um casal irreconciliável. Sucessivos políticos e militares, não há nada mais volátil que heróis quando acaba a guerra, traíram Cabral e os guineenses. Um povo amável, generoso e extraordinariamente calmo, a quem os cínicos chamariam apático.

Pode-se andar a pé com descontracção por Bissau. Perguntam-lhe com delicadeza se quer comprar bananas, mangas, mancarra ou crédito para o telefone e aceitam com facilidade um não. Difícil de repetir, a dignidade da pobreza em Bissau. Difícil andar assim noutras cidades africanas. Os guineenses são bon sapatu pe jingidu (sapato bom em pé torto). Equivocaram-se de país.

Se fosse um romance a Guiné-Bissau seria um romance negro, obsessivo, cheio de figuras sinistras, golpes de Estado, execuções, impunidade, traições, conspirações, violência brutal. De tal forma que o leitor, a dado momento, pensaria que o escritor entrou  em modo contínuo, repetindo a trama, capitulo após capítulo. Sintetizemos o pleonasmo: Amílcar Cabral foi assassinado, Nino afastou Luís Cabral, Ansumane Mané expulsou Nino para o exílio, Kumba Ialá permitiu que os militares balantas eliminassem Ansumane, os militares afastaram Kumba e mataram mais tarde, o líder do golpe, o general Veríssimo Seabra. Tagme na Waie foi assassinado, horas depois os militares matariam Nino Vieira. Zamora Induta foi afastado da chefia das Forças Armadas por António Indjai. Na noite deste domingo um novo assassinato, o do ex-chefe da secreta militar, Samba Djaló, que terá morto ou estado envolvido na morte de Baciro Dabó. A lista de cabeças a prémio parece não se ter esgotado ainda.

Domingo levantei-me bem cedo. Céu azul de Verão. Podia dizer que cantavam os galos, mas eles cantam com tanta frequência nas ruas de Bissau. Mais numerosos que eles só os abutres. Deixei a ilha que é a Residencial Coimbra, subi a Amílcar Cabral e assisti à abertura de uma mesa de voto. Falar em abertura é quase redundante quando a mesa de voto é ao ar livre, em pleno passeio. Às sete da manhã já havia fila para votar, numa cabine de papelão. Comove-me sempre esta não desistência, impressiona-me este acreditar. Si bu misti kume fruta, bu ten ku régua (se quer comer fruta, tem de regar a planta).

Eram oito e dez quando entrei na Catedral. “A que horas é a missa?”, perguntei. “Às oito”. Os vinte minutos que se seguiram permitiram-me conhecer a Clemência, uma menina de idade indefinida, que mal me viu encostou o braço ao meu, depois tocou-me no cabelo. “Gosto de ti mamã. És esquisita”. E sorriu-me. Instantes como estes justificam todas as incomodidades.

Sai da Catedral e palmilhei o centro de Bissau, quase de ponta a ponta. Fotografei a barbearia Chiado e as casas em ruínas de Bissau velho. Vi o candidato favorito, Carlos Gomes Júnior, votar a trinta centímetros, senão menos, de distância, espetei-lhe o microfone no nariz, porque esfera de distância pessoal é algo desconhecido pelos colegas guineenses. Em Roma se sê romano.

Pouco tempo depois da “festa da democracia” assisti a uma tentativa de silenciamento, na Comissão Nacional de Eleições guineense, de um jornalista cabo-verdiano, por parte do adido de imprensa da embaixada angolana. A influência descarada de Angola na Guiné não parece fazer pruridos a ninguém. Ingenuamente, ou talvez não, um colega simpático de um órgão estatal angolano, disse-me: “agora é mais fácil pedires o visto de jornalista, nós [Angola] temos quem trate disso e que pode acompanhar-te em Angola”.

Sai da Comissão de Nacional de Eleições e fotografei Amílcar. Pensei no meu pai que aos vinte anos combateu em nome de um crime chamado colonialismo e de um ditador bafiento e provinciano. Deixou no mato a juventude e os sonhos. As cicatrizes da guerra fizeram dele um ausente, não passou pela vida, a vida passou por ele. A minha Guiné, escrita a sangue em Boé e em Pindjiguity, livre, independente, privou-me de pai. Trair Cabral, é trair os guineenses, mas também, desculpem o egoísmo, atraiçoar-me a mim.

Acabei o dia a jantar, no quarto, ananás comprado na berma da estrada, em vez de chocos grelhados nesse improvável restaurante ao ar livre , o Porto, situado em frente à Coimbra, que serve pratos inesperados como cozido à portuguesa ou dobrada. Serviram-me à sobremesa um assassinato. Eu não disse que a Guiné é uma ficção?

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8 thoughts on “Hoje não houve chocos

  1. Um misto de admiração e surpresa, é o que sinto ao ler este texto. Admiração pela beleza do texto, sentido e verdadeiro, surpresa porque se não tivesse há poucas semanas conhecido o seu blogue provavelmente acompanharia estas eleições em Cabo Verde de forma mais distante.
    Obrigado, e continuação de bom trabalho 🙂

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  2. Uma belíssima escrita, aliada a sensibilidade e espírito humanista. Neste blogue entra-se numa outra dimensão, lá muito em cima, e longe da pequenez das coisinhas, do umbigo e de considerações superficiais. Que bom é poder acompanhar viagens físicas e humanas através do Domadora. Para quem gosta do mundo, claro. 🙂

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  3. “Fugindo dos ventos alíseos”, cara Helena Ferro de Gouveia? E porque fugiria Cabral do vento que o fazia deslocar-se? Não seria antes “fugindo do anti-ciclone de Santa Helena” que quis dizer? Só se “foge aos alíseos” quando se quer regressar às costas Oeste dos continentes, não quando se navega para Oeste.

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    1. Tem absoluta razão. Deveria estar empurrado pelos alíseos. A verificação de todos os detalhes é um dos maiores problemas de escrever nos breves minutos que sobram do dia. Bastar-me-ia ter reflectido um pouco mais. Fica aqui o mea culpa.

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      1. Pormenores… pouco importa, o texto é bonito.

        (Já agora: os barcos à vela não são “empurrados” pelo vento; são aspirados pelo vento. Mas isso é um pormenor ainda mais pormenor do que o dos alíseos, e ninguém compreenderia, se dissesse “Cabral foi aspirado pelos alíseos”) 🙂

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  4. [Importa-se de apagar o comentário anterior, por favor? Escapou-se-me…]

    Enfim, é um pormenor, eu sei, num texto bastante bonito e de que conheço, e partilho, as profundezas.

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