A minha Guiné, o meu colo

Sempre que chego a Bissau tenho a sensação de encontrar qualquer coisa de mim própria. Sai daqui tão pequena que na memória só retive os passeios no cais do Pindjiguity com a minha mãe. Do cais da minha breve infância africana nada resta. A minha memória é uma traição, e mesmo assim este lugar caótico, tumultuoso, quase insane, fascina-me. Aqui a vida jorra aos borbotões, grita-se em crioulo para vender alguidares de peixe, ri-se alto, regateia-se como quem regateia a existência. Gosto desta África assim. Autêntica. Aquela que normalmente não se anota num elegante Moleskine. “ O que amamos é sempre chuva, entre o voo da nuvem e a prisão do charco”.

 Ali bem perto do cais assisti a um colorido e eufórico comício eleitoral. Um dos muitos onde estive.  Acreditem que não há nada comparável ao encerramento das campanhas na Guiné-Bissau. É um misto de arraial popular, Carnaval e jogo de futebol. Só que para mais alto. No desfolhar da tarde a cidade encheu-se de tshirts brancas, com a cara dos candidatos, que a iluminaram como um sol particular. Pulsava ao ritmo enlouquecedor da música que saia de enormes colunas. Quebrantava-se perante um simples tambor e uma tampa de panela. Alegrias intercambiadas.

Fartos de estarem reféns do passado os guineenses parecem querer resolver o futuro. E o desejo que mais lhes ouvi, independentemente do candidato que apoiam para as presidenciais de domingo, é “paz”. Desejo que não tem superlativo.

Agora que escrevo olho pela janela. Vejo a catedral onde fui baptizada. Rezo baixinho pelo país que me viu nascer. Que já não é o meu, mas cujas coordenadas geográficas trago escritas no sangue.Como o colo de mãe o lugar onde se nasceu aninha-se no peito e enche-nos de um calor bom. O lugar onde nascemos fica além de todas as viagens.

PS- Foi tão bom ver Bissau com electricidade, com pavimentos alcatroados, e sentir que o país está andar.Devagarinho é certo, mas a andar.

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3 thoughts on “A minha Guiné, o meu colo

  1. Belo texto. Eu que não nasci em África, sinto uma estranha nostalgia de espaços e tempos que não vivi… Inexplicável mas assim é. E torço por ela, claro. Há alunos de Bissau onde leciono, não estão sentados na minha aula mas já conheci alguns. A humildade, o respeito…coisas bonitas vindas de terras simples. Duro, imagino, mas autêntico.

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  2. Concordo inteiramente, é um lindo texto bem sentido e melhor transmitido.
    Os regressos às origens, sejam lá onde elas forem, vão tendo um significado ainda mais intenso com a idade 🙂

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