“Kilombos” ou um Brasil pouco conhecido

Os quilombolas também são brasileiros, mas de “um Brasil de alguma forma invisível”, alheado de carnavais e futebóis, diz Paulo Nuno Vicente, autor de um documentário sobre estes descendentes de escravos africanos que lutam pelo direito à terra.

“Kilombos” é o nome do documentário realizado pelo jornalista Paulo Nuno Vicente, com direção de imagem de Luís Melo e financiado pelo Instituto Marquês de Valle-Flôr (IMVF), que será mostrado pela primeira vez no seminário internacional dedicado à cultura dos quilombolas, na quarta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Em declarações à Lusa, Paulo Nuno Vicente explicou que quis mostrar “um retrato que sai fora do postal”, mas que, acredita, “é importante conhecer”, porque revela “o Brasil contemporâneo”.

“Este é também o Brasil, um Brasil de alguma forma invisível. Está fora do Carnaval, fora do futebol, das praias repletas de mulheres esculturais”, realça.

Os quilombolas que o documentário retrata – que vivem no estado do Maranhão e têm origens em Cabo Verde e Guiné-Bissau – “vivem à sombra de um quadro de direitos que é consagrado legalmente, quer nacionalmente, dentro do Brasil, quer internacionalmente, quando falamos de direitos humanos”.

Cacheu - Fotografia da ONG AD

“É algo paradoxal que seja possível encontrar, ainda hoje, comunidades (…) em que a violação de direitos democráticos básicos acontece diariamente”, seja por impossibilidade de acesso à escola ou por invasão de terras, assinala o jornalista.

Os “crimes contra pessoas e património” são frequentes nos quilombos (nome das povoações, que se estimam em mais de três mil no Brasil), relata Paulo Nuno Vicente, referindo a violência que afeta sobretudo as pessoas que, dentro das comunidades, têm procurado organizar-se. “Algumas delas são assassinadas ou são de alguma forma perseguidas. (…) Tiveram que, várias vezes, fugir da sua própria casa”, exemplifica.

Todos os sujeitos do filme são quilombolas, à exceção de um, que desafia os espetadores a perguntarem-se quem vive em alojamentos precários nas grandes cidades. “São usualmente pessoas negras, que foram obrigadas a fugir para os centros urbanos, para poderem ter um nível de vida mais aceitável”, responde Paulo Nuno Vicente, lamentando que “este tipo de temas” não mereça uma abordagem “mais aprofundada” por parte dos jornalistas, do Brasil e do mundo.

Fonte: LUSA

PS- O documentário estará disponível aqui a partir de dia 7.03

 

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4 thoughts on ““Kilombos” ou um Brasil pouco conhecido

  1. Tem muitos Brasis que estão fora do Carnaval, fora do futebol, das praias repletas de mulheres esculturais. Esta é a imagem que estrangeiros mal informados tem do país, infelizmente.

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  2. Assim me pareceu, de facto, arlete. Estive no Brasil há 5 anos e a realidade que vi é muito diferente da folia e da cultura de praia. Estas existem mas também muitas outras formas de diversidade, boa e menos boa.

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    1. O Brasil tem dimensão continental. Reduzi-lo a carnaval, futebol, mulher bonita é como reduzir Alemanha a chucrute e salsichão e Portugal a bacalhau e dança do vira.

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      1. De acordo Arlete, nós sabemos que há vários retratos do Brasil. Todavia para muitos o Brasil é Copacabana , samba, caipirinha e fio dental, pelo lado positivo, e favelas e extrema violência, pelo lado negativo. Há no imaginário popular um conjunto de esterótipos associados ao Brasil ( assim como a outros países), o que não significa de forma alguma que o país se reduza a isso.
        Mesmo Portugal, que é pequenino, é extremamente rico em nuances, embora seja percepcionado no exterior como o país dos três “f”( fado, futebole Fátima).
        Penso que era contra este relativismo na forma de olhar o outro que o Paulo Nuno Vicente, que é meu amigo e uma pessoa com “p” maiúsculo, se insurgia.

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