Caça às bruxas no Facebook

 A história de Hamza Kashgari devia arrepiar aqueles que se importam com a liberdade de expressão ou religiosa. O “pecado” deste jovem jornalista saudita? Três tweets. Um punhado de caracteres publicados a 4 de Fevereiro, data em que se celebrou o feriado islâmico Maulid an-Nabi, o aniversário de Maomé.

“No teu aniversário, vejo-te, para onde quer que olhe. Amei certos aspectos teus, odiei ou não compreendi outros” escreveu o jornalista. “No teu aniversário, não me prostrarei perante ti e não te beijarei a mão. Não rezarei por ti”.

Horas depois de ter escrito isto milhares de sauditas, guardiões da virtude, exigiam no Twitter a sua morte.

Kashgari apagou os três tweets e fugiu para a Malásia, de onde seria deportado, este domingo, para Arábia Saudita, paraíso onde se emparedam mulheres atrás de uma cortina de tecido negros e apedrejam adúlteros. Enfrenta agora a pena de morte por blasfémia.

 No Facebook, onde se denunciam como pornográficas fotografias de mulheres a amamentar, instalou-se, perante a aparente apatia geral, um pornográfico linchamento. Mais de 25 mil pessoas “likaram” o grupo “o povo saudita quer a punição de Hamza Kashgari”. Os comentários neste grupo são bem explícitos: “o blasfemo merece a morte”, “ faça-se dele um exemplo”. A página inglesa no Facebook “ Save Hamza Kashgari” ainda não chegou aos setecentos apoiantes.

Cada tragédia tem a sua Cassandra. A Cassandra do mundo ocidental, livre, tolerante e democrático é a indiferença.Apetece-me cortar esta claustrofobia.

Advertisements

3 thoughts on “Caça às bruxas no Facebook

  1. onde se denunciam como pornográficas fotografias de mulheres a amamentar

    Essas denúncias provirão mais provavelmente dos EUA que, em certos aspetos morais, têm muitas semelhanças com a Arábia Saudita.

    Nos EUA é que a visão de uma mama é considerada o supra-sumo da pornografia (porque a mama é considerada o supra-sumo da atrativo sexual).

    Gostar

  2. Na religião islâmica, dizer do profeta aquilo que Hamza Kashgari disse é, não o duvido, blasfemo.
    Ora, há muitos países que têm leis anti-blasfémia. Não apenas a Arábia Saudita mas também países tão nice-looking como a Irlanda e o Reino Unido.
    Se bem que nestes últimos países a lei da blasfémia raramente ou nunca seja aplicada, e em caso algum preveja a pena de morte, ela está lá, nos livros legais desses países (e, no caso irlandês, até lá foi posta há bem pouco tempo).
    Não basta criticar a Arábia Saudita, convem também olhar para países que ficam mais perto de nós, em termos culturais e de relações internacionais.
    Pergunto se a página inglesa “Save Hamza Kashgari” fará alguma referência à lei anti-blasfémia inglesa…

    Gostar

  3. Sim, muitos países (islâmicos mais) há ainda um longo caminho a fazer na distanciação em relação à religião. Não é só lá, realmente, há muitas cabeças que não concebem uma crítica, piada, opinião diferente, ausência de crença, vivem enclausurados em dogmas. Faz-me impressão, muita – lá, cá em qualquer lugar.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s