Pronto o Público borrou a pintura…

O que se passa na Síria é um escândalo moral. Em editoral, o Público sustenta exemplarmente :

Ao decidirem vetar a resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a China e sobretudo a Rússia provaram uma vez mais que a violência das ditaduras sobre os seus povos não os apoquenta minimamente. A clivagem entre as democracias ocidentais e os regimes de Moscovo e de Pequim tornou-se de novo evidente. Não são apenas os negócios de armas ou outros interesses concretos que movem estes regime. É a crença numa visão que rejeita a ingerência nos assuntos de outros estados soberanos, por mais brutais que estes possam ser. O cinismo dessa crença ficou exposto a olho nu com a recusa de ambos em condenar o regime sírio, ao mesmo tempo que este massacrava friamente centenas de pessoas em Homs. Mas, com este gesto, essas duas potências ficaram isoladas na cena internacional, para além de ter minado acapacidade de acção das Nações Unidas na tragédia síria, que se arrasta há quase um ano.

Só que  no mesmo jornal, no caderno P2 se escreve isto:

Os jornalistas ocidentais e a oposição bem tentaram criar confusão. Mas as notícias mentirosas no vingaram. Asma al-Assad, a mulher do presidente sírio, não fugiu para Inglaterra, nem se refugiou na Rússia. Está onde sempre esteve, em Damasco, ao lado do marido. Mais: continua linda e elegante. , como comprovaram os sírios que no dia 11 de Janeiro assistiram a um comício de Bashar al-Assad. Sentada na primeira fila – e enquanto ia acariciando o cabelo dos filhos Hafez e Zein – Asma ouviu dizer que a violência no seu país é obra de gangues terroristas ao serviço de uma conspiração internacional para o derrubar.

 Dahh? Terei lido bem? Os milhares de mortos são um mero detalhe ? Nem Hola faria melhor…

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4 thoughts on “Pronto o Público borrou a pintura…

  1. Por acaso, tinha pensado em rebater a tese de que o Público era um jornal éticamente probo e exercia uma missão cultural e política democrática forte. Na Europa, como o Financial Times e o Expresso ( PT),o Público faz pagar o acesso aos seus artigos de Opinião & Comentários…O que é de uma ousadia insuportável e de uma falta de espírito de missão absolutamente condenável. O NY Times andou anos para introduzir o pagamento no acesso aos seus textos, mas nunca tocou no acesso livre ao seu volumoso e diário lote de textos de alta qualidade de Opinião. O Le Monde, o The Guardian e o The Independent seguem o mesmo modelo. O ” Público ” , em sucessivas fases de corte e austeridade ao longo dos últimos 5 anos, deitou às artigas todos os processos de qualidade informativa mínima. Mesmo o Diário de Notícias preserva esse reflexo mínimo de ética democrática, que é o de isentar de pagamento o acesso às colunas opinativas. Vitor Faro

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    1. O Publico neste momento esta muito distante do projecto inicial. Embora eu também aprecie alguns trabalhos do DN em matéria de informação internacional a cobertura do Publico costuma(va) ser mais completa e aprofundada. Com a precariedade no sector jornalístico a qualidade tem vindo a decair, lamentavelmente. O facto de tornar os conteúdos pagos prende-se com uma estratégia de sobrevivência económica ( que tenho as minhas duvidas que seja a mais eficaz).

      Estou a escrever do telemóvel e dai a falta de alguma acentuação.

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    2. Eu não percebo nada daquilo de que estou a falar, mas o que me parece que seja o caso é o seguinte. O Público, tal como os outros jornais portugueses, não tem atualmente tempo nem dinheiro para fazer qualquer espécie de jornalismo de investigação. Portanto, as notícias que dá são as que lhe são transmitidas pelas agências noticiosas (nacional e internacionais), sem qualquer tratamento relevante. Ou seja, recebem os telexes das agências noticiosas e escarrapacham-nos no jornal. O valor acrescentado de tal atividade é mínimo, e eles sabem-no, pelo que não podem estar a vender tais conteúdos. Em face disto, aquilo que distingue o jornal, e que eles procuram vender, é a opinião. Os comentadores e opinadores são a única coisa de verdadeiramente original que o jornal tem (as notícias são todas iguais às de todos os outros jornais), e é isso que ele vende. É por isso que o Público coloca na internet os artigos de opinião pagos. Porque é a única coisa que de facto tem valor no jornal.

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  2. Duas Notas- 1).O Libération( Paris ) adaptou um esquema para as colunas de Opinião: passado 24 horas da sua publicação , ficam gratuitas. O Jornal de Negócios ( PT) adoptou o mesmo esquema, desde o Verão passado. Nem todos os artigos do Libé ficam sugeitos a taxa, no entanto. O Libé, fundado por Sartre e os seus amigos nos primórdios dos anos 70, é um diário que vive, sempre viveu, na corda-bamba financeira, apesar da sua enorme qualidade.
    2). A questão Síria não é (só) uma faca de dois gumes. A Rússia e a China foram ” enganadas ” pela Nato e valetes na campanha da Líbia, há pouco menos
    de um ano, se estão lembrados. E há zonas de domínio e interesse estratégico
    mundiais, onde a presença da Rússia e China não podem sofrer enxovalhos ou
    tentativas de marginalização. Uma delas é o Próximo Oriente e os países do Golfe , onde o papel da Síria assume uma certa importância. Que cresce dia-a-dia por via do mainstream xiita, islamismo radical, que domina no Irão, tem a supremacia no Iraque e cresce exponencialmente no Líbano…Assad além de ser um aliado da Rússia, pesa agora muito mais em termos geo-estratégicos por causa da instabilidade da vida política interna iraniana, a um mês das Legislativas, e das ameaças de retaliação( bombardeamento…) de Israel ao seu vizinho e cúmplice. A China tem telhados de vidro…e só pensa nos seus fornecimentos em crude e outros minerais. Vitor Faro

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