Quando uma mulher se reduz um a orifício entre as pernas

 

Tinha sete dias de vida quando a mãe a preparou para ser infibulada. Deitaram-na nua no chão, rodeada de mulheres, seguram-lhe nos braços e nas pernas e excisadora cortou os grandes e os pequenos lábios. Depois costurou-a, deixando um minúsculo orifício. Aos 12 anos casou com um homem de sessenta anos, que tinha outras mulheres e que ela que não amava. Mas não tinha escolha. Tinha de “respeitar” a sua cultura. Durante mais de uma semana o marido tentou abrir, à força orifício vaginal. Não conseguiu. Teve de ser cortada, uma vez mais. Não chegou a ser mãe, nem à idade adulta porque morreu durante o parto.

A história de Amina, uma menina etíope da região de Afar, repete-se diariamente.Em nome da tradição, da honra, da virgindade, da religião. Em muitos países uma mulher reduz-se a um orifício entre as pernas.

Os nomes da tortura são muitos: Kakia, no Togo, Sunna, no Sudão, Fanado, na Guiné-Bissau. Só em África, segundo a UNICEF, cerca 3 milhões de meninas são excisadas anualmente. Meninas para as quais ser-se mulher significa ver mutilada, cortada uma parte de si. Nalguns casos o clítoris, noutros os grandes e os pequenos lábios. Ao longo da vida há meninas e mulheres que são cortadas e cozidas várias vezes. A sangue frio.

Apesar do esforço global para acabar com este crime contra os direitos humanos, a mutilação genital feminina, também conhecida pela sigla inglesa FGM, Female Genital Mutilation, continua ser praticada em pelo menos 28 países africanos, na Ásia e no Médio Oriente. Devido aos movimentos migratórios alastrou-se, a outras partes do globo como a Europa e a América do Norte. A Alemanha, a França, o Reino Unido e Portugal não são excepção. Vivem na Europa meio milhão de meninas e mulheres que foram vítimas desta tortura, em todo o mundo estima-se que o número de vítimas seja entre 100 a 140 milhões.

Ibraim Balde é um guineense cujas filhas foram mutiladas contra a sua vontade e que hoje se empenha em pôr um ponto final prática do fanado comum na comunidade guineense residente em Portugal. “ Imagine uma menina com doze ou seis ou oito ou nove anos de idade que nunca viu uma coisa dessas e de repente vai-se ver na mão de umas velhas, a agarram-lhe, a forçarem-lhe, a abrir as pernas e cortarem-lhe o clítoris com faca ou com lâmina sem esterilizar sem nada, ela pensa que está ser morta ela fica com ódio dessas pessoas, até dos próprios pais”

Consequências dramáticas

Uma vez concretizada a mutilação é irreversível e se a vítima sobreviver, , irá sofrer inúmeras consequências físicas e psicológicas. A curto, médio e longo prazo. Elise Johansen, especialista da Organização Mundial de Saúde em mutilação genital feminina é muito clara.A FGM é uma violação dos direitos humanos das meninas e mulheres. Não traz qualquer benefício para a saúde, pelo contrário prejudica de muitas formas a saúde. A remoção ou lesão de tecido genital saudável interfere com o funcionamento natural do corpo e acarreta riscos físicos, psicológicos e de saúde sexual, incluindo complicações no parto que podem por em risco as mães e as crianças”.

A gravidade das sequelas varia consoante o tipo de mutilação praticado, as condições em que é realizada, a experiência da pessoa que faz a excisão, bem como da resistência que a menina ou a adolescente apresenta.

Além do sofrimento atroz que a maioria delas sente no momento do corte, o doloroso processo de cicatrização da ferida é acompanhado com frequência de infecções, devido ao uso de utensílios contaminados, e dores ao urinar e defecar. Incontinência urinária e infertilidade são outras das sequelas comuns. O facto de serem usadas as mesmas facas ou lâminas para mutilar várias crianças acrescenta o risco de contrair o vírus da SIDA à extensa lista das consequências da mutilação.

Forma de controlo social sobre a mulher

Em todas as sociedades onde é realizada a mutilação genital feminina ela é uma forma de controlo social sobre a mulher e a sua sexualidade. É uma crença comum que a mutilação preserva a virgindade e reprime o desejo sexual feminino. Geralmente os riscos e complicações associados com os tipos de mutilação I , corte parcial ou total do clitóris, e II, corte do clitóris e dos pequenos lábios, ou tipo II, que consiste na excisão de parte ou da totalidade dos genitais externos e sutura da abertura vaginal, são semelhantes, mas tendem a ser mais graves quanto mais extensiva seja a mutilação.

Nalgumas comunidades acredita-se, erradamente, que a prática contribui para aumentar o prazer masculino. É importante tornar claro aos homens que esta pratica também os afecta. A relação sexual é frustrante quando não é uma tortura, explica Elise Johansen. A penetração é difícil ou mesmo impossível no caso da mutilação de Tipo III, Neste tipo de mutilação , também conhecida como excisão faraônica, na maioria dos casos a mulher tem de ser cortada pelo marido antes do primeiro contacto sexual. “ Falei com muitas mulheres que me disseram que se divorciaram por causa da FGM e da dor e conflito que causa no casamento. O sexo torna-se impossível ou doloroso ou tão stressante que leva ao divórcio. Ambos os parceiros são infelizes. Há alguns, poucos , estudos sobre a infibulação que mostram que os homens estão insatisfeitos e tem queixas físicas e psicológicas sobre a prática”.

Riscos para a mãe e o o recém-nascido

Estudos da Organização Mundial de Saúde confirmam que as mulheres mutiladas vêm significativamente aumentados os riscos e complicações durante o parto. A especialista da OMS, Islene Araújo de Carvalho, enumera-os. “Na gravidez é muito complicado porque a probabilidade de ruptura vaginal durante o parto, durante a expulsão do bebé, rupturas sérias e hemorragias de maior, também a questão do trabalho de parto, a probabilidade de ter um chamado trabalho de parto obstruído em que demora o período expulsivo, demora a expulsão do bebé, isso também acontece… a questão se for uma mutilação genital onde se costura a vagina da mulher aquilo vai ter que ser descosturado na hora do parto, quer dizer é um trauma mais durante o momento do parto… e a questão urinária porque imagina, você está grávida, uma grávida ela vai para o banheiro todo o tempo, ela já tem dificuldade em urinar porque a cabeça do nenem faz pressão sobre a uretra e para completar tem uma questão de estreitamento do orifício uretral devido a mutilação genital. Então vocês imaginam aí o drama que estar grávida e ter sofrido a mutilação genital.”

Além da mãe, também os recém-nascidos podem sofrer os efeitos nefastos da mutilação. Segundo a Organização Mundial de Saúde taxa de mortalidade infantil é mais elevada em 55 por cento em mulheres que sofreram uma mutilação de tipo III . A África Oriental onde prevalecem as excisões farónicas é a zona do globo com o maior índice de mortalidade de mulheres e bebés durante o parto.

A somar às consequências físicas há as consequências psicológicas. Para algumas meninas a vivência da FGM tem repercussões semelhantes às da experiência de uma violação. Também a perda de confiança nos seus familiares e na comunidade em geral pode comprometer a qualidade das relações íntimas que a mulher estabelece no futuro inclusive com os próprios filhos. São evidenciados ainda sentimentos de terror, traição e humilhação por parte das vítimas, muitas sofrem em silêncio por não serem capazes de expressar o seu sofrimento.

Em muitos países onde a mutilação genital feminina se pratica, não se fala sobre ela, assim como não se fala sobre sexualidade.

Franziska Gruber da ONG alemã Terre des Femmes, uma organização que desde 1981 luta contra a mutilação genital feminina, salienta Falar de sexualidade em geral é ainda tema tabu. Há países como por exemplo a Serra Leoa onde pode ser perigoso falar em público sobre a mutilação genital feminina. As jornalistas que o fizeram na rádio foram raptadas e maltratadas por defensores da prática”.

Esta activista nota que em vários países africanos se vive um conflito de gerações. Uma geração de mães, que foi mutilada quer poupar as suas filhas à prática, mesmo que isso vá contra as normas da comunidade .“Uma história comoveu-me muito. A de uma mulher que me disse: perdôo à minha mãe que ela tenha permitido que eu fosse mutilada. Ela pensava que era o melhor para mim, para o meu futuro, para eu ter um lugar na sociedade. Mas jamais lhe perdoarei que ela tenha levado a minha filha ser excisada, porque os tempos mudaram e agora conhecem-se as consequências da mutilação genital feminina”.

PS- A reportagem que fiz para a DW Africa (assim como quatro outras) podem ser ouvidas aqui

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6 thoughts on “Quando uma mulher se reduz um a orifício entre as pernas

  1. é muito facil julgar as mulheres por seu materialismo quando na verdade a culpa é do proprio homem ja q os presentes era a unica compensacao q elas possuiam ja q o prazer lhe era negado até mesmo a escolha disso nem pertencia a sua familia.

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  2. Esse e a pior forma de tortura fisica,psicologica e moral que um serhumano pode ser submetido,tirar o direito de sentir prazer da mulher,de ser mae e em muitos casos ate o de viver e o cumulo da crueldade

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  3. Li um livro, histórias de mulheres, lágrimas na areia de nura abdi, fiquei chocada, pensei que só cortavam o clitóris para que a mulher não tivesse prazer na relação sexual, mas ao ler o livro vi que a crueldade ia para além daquilo que eu entenderá. Corta-las e coze-las … é de arrepiar, sem palavras para descrever o que sinto ao imaginar. Acabei com isso o mais rapidamente possível para que essas mulheres não tenham medo de se relacionar, de casar e ter filhos, para que estes venham sem terem de ser mutilados.

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