(Mais) uma boa razão para ler o Público

“ Angola, os mitos e a realidade em discurso directo pelos emigrantes portugueses”, é o título de um excelente trabalho jornalístico do Público. A ler para quem não quer andar às cegas. Trata-se de um ensaio sobre a nova vaga migratória portuguesa, comparável à dos anos 1960, sobre os riscos profissionais que se correm, sobre a corrupção endémica, sobre um país onde o bafo dos serviços secretos se sente de perto, e que, apesar do crescimento económico de dois dígitos, aparece no lugar 148 (em 187 países) no último relatório das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Humano.

Eu pertenço aqueles que ainda acreditam a imprensa escrita contribui para a formação da capacidade crítica de pessoas livres. Tem, ou pode ter, uma espessura e densidade analítica que ultrapassa a espuma dos acontecimentos. É mais de que um apontamento rápido num blogue, duas linhas no facebook ou no twitter.

Não sei se vos inquieta, mas a mim sim: porque será que em Portugal se gasta 30 euro numa garrafa de vinho ao jantar e não investe menos de dois euros por dia num jornal?


4 thoughts on “(Mais) uma boa razão para ler o Público

  1. sobre os riscos profissionais que se correm, sobre a corrupção endémica, sobre um país onde o bafo dos serviços secretos se sente de perto

    Na minha aldeia (mais precisamente, a aldeia do meu pai) há imensos emigrantes em Angola, incluindo familiares meus. E cada vez mais pessoas partem para lá. Nunca ouvi lá na aldeia falar de riscos profissionais, de corrupção nem de serviços secretos. As pessoas vão para lá em massa para trabalhar em empresas portuguesas que estão lá instaladas e que oferecem excelentes condições de trabalho e salariais. Ainda no sábado passado, enquanto cortava o cabelo, a cabeleireira me falou do filho dela que lá está, a trabalahar como técnico de frio numa empresa que lhe oferece excelentes condições. Foi para lá a pensar só lá estar dois anos mas já está no terceiro e não pensa voltar.
    A Helena gosta de falar mal de Angola, mas muitos portugueses estão hoje muito contentes por Angola existir.
    Em compensação, o que se ouve na televisão é de casos de portugueses enganados e escravizados em países como a Holanda ou Espanha ou o Reino Unido.

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    1. Luís, eu não gosto de falar mal de Angola. Os factos falam por si ( leia-se os relatórios do FMI, da Global Witness, da Aministia Internacional, da Repórter sem fronteiras, ou o blog desse grande senhor que é o Rafael Marques).
      Eu respeito Angola enquanto país e tenho vários amigos angolanos que admiro. Há em Angola pessoas maravilhosas, pessoas corajosas e muitas, demasiadas, que lutam pela sobrevivência. Ainda ontem a LUSA noticiava que os milhares de deficientes e mutilados de guerra arriscam-se a ficar sem próteses porque não há dinheiro, nem apoios da parte do Estado.

      Aquilo contra o que me insurjo, não é o desenvolvimento angolano, pelo contrário, mas sim contra a desigualdade social e as grosseiras violações dos direitos liberdades e garantias. Leia com atenção os depoimentos no Público e o que se diz nas entrelinhas.

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  2. Tenho uma opinião um bocadinho diferente da sua sobre os jornais. Durante muito tempo, fui leitor regular do Público. Agora compro-o de vez em quando (à Sexta, sempre, por causa do Ípsilon). A verdade é que raramente encontro no jornal razões que justifiquem o custo, especialmente aos dias de semana. A maioria das notícias é abordada de forma pouco profunda, muitas vezes o destaque é dado a questões menores (espuma dos dias, no fundo) e, para mim, com algumas excepções, apenas uma ou outra coluna de opinião ainda vale a pena. Espremido o sumo da maior parte das edições, nada se aprende que já não se saiba ou venha a descobrir um par de horas mais tarde na internet ou na televisão. Um dos últimos exemplos: os principais bancos portugueses apresentam prejuízos. Toda a gente o viu na TV. No dia seguinte, o Público faz manchete disso. Informação nova? Nenhuma. E era possível tentar obtê-la: é verdade o que os bancos dizem sobre já não terem activos de risco? (Por exemplo: não têm dívida pública portuguesa e italiana e espanhola?) Qual a situação dos accionistas, solicitados a injectar capital? Quais as perspectivas para o crédito mal parado? Etc., etc. Claro que não é só o Público – na realidade, os outros jornais são ainda piores.

    (Um exemplo mais comezinho sobre a “qualidade” jornalística actual: há dias falava com uma pessoa sobre o porto de Leixões. Dizia-me ela que há uns anos foi feito um investimento para aumentar a profundidade de acesso ao porto, de modo a permitir a entrada de um determinado tipo de navios – já não me lembro do termo técnico. Desde então, sempre que se fala no assunto, essa explicação volta a ser dada – e haveria outras possíveis: maior segurança no acesso para todos os navios, por exemplo. Por que é que volta a ser dada? Porque nunca nenhum jornalista perguntou quantos navios desse tipo entraram em Leixões após esse investimento. Parece que a resposta é zero.)

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    1. ” A verdade é que raramente encontro no jornal razões que justifiquem o custo, especialmente aos dias de semana. A maioria das notícias é abordada de forma pouco profunda, muitas vezes o destaque é dado a questões menores (espuma dos dias, no fundo) e, para mim, com algumas excepções, apenas uma ou outra coluna de opinião ainda vale a pena.”

      Concordo consigo quando diz que o Público ( e a imprensa de referência em geral) perdeu qualidade, deixou de ter agenda própria (limita-se demasiadas vezes a fazer eco dos takes das agências noticiosas internacionais ou do Le Monde, EL Pais ou FT). Tive demasiadas vezes essa discussao com jornalistas do Público e não só , nomeadamente no que diz respeito à necessidade de acompanhar de perto a actualidade aqui na Alemanha (se reparar com excepção da LUSA nenhum meio de comunicação social português tem um correspondente no país mais importante da União Europeia, só esta atitude diz muito, ou tudo).

      Agora penso que os leitores têm também um importante papel. Aqui na Alemanha quase ninguém começa o dia sem ler o jornal ( nas escolas secundárias, na disciplina de Política é o obrigatória a leitura e a análise das notícias germânicas e internacionais). São leitores que por um lado financiam o jornalismo de qualidade e por outro com a sua exigência o obrigam a manter standards elevados.

      Quanto à opinião nos jornais há poucos colunistas que valem a pena ler ( há melhor opiniao e mais bem fundamentada na blogoesfera). O Expresso, por exemplo, irrita-me por exemplo porque tem uma míriade de colunista a escrever sobre o mesmo assunto, com demasiados erro factuais, e quase sempre (com raras excepções)sem nenhuma mais valia. Ainda este sábado a Clara Ferreira Alves escrevia uma vez mais a atacar a Alemanha,afirmando com leviandade que a Alemanha “ainda não perdeu a mania do Lebensraum” e referindo-se com desprezMeã Merkel como “engenheira química”( Merkel é doutorada em Física) provinciana…

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