Coisas de espantar (ou talvez não)

Há em Portugal, muita gente, jornalistas incluídos, que é alérgica ao Pedro Rosa Mendes. Por motivos variados.  Não andarei muito longe da verdade ao presumir alguma invejazinha por detrás da “alergia”. Adiante.

Recentemente o i noticiava o suposto pedido de desculpa de Pedro Rosa Mendes ao presidente angolano. Artigo que rapidamente se espalhou pelos murais do Facebook.

Na prosa em causa, Aldemiro da Conceição, antigo porta-voz do presidente angolano, garantiu ao jornal que o escritor “foi em 2002 ao Palácio Presidencial, em Luanda, pedir desculpa a José Eduardo dos Santos por causa das reportagens publicadas no “Público” em 1999”, onde eram denunciados a corrupção generalizada, os orçamentos paralelos, o tráfico de armas, os negócios à margem do Estado, as ligações ao submundo internacional. No centro desta teia: o Futungo de Belas e os Generais.

Segundo o padrinho de casamento de Isabel dos Santos, o jornalista nunca se encontrou “presencialmente com o presidente, mas entregou-me o pedido de desculpas a mim”. O artigo do i prosseguia com as declarações de Pedro Rosa Mendes que confirmava a presença no palácio presidencial em 2002  onde que ficou “uma hora dentro de uma sala a olhar par um quadro de proporções norte-coreanas do presidente de Angola”. Findo esse tempo o jornalista deixou o palácio. Em nenhum momento desse artigo se escreveu de forma clara e categórica que Pedro Rosa Mendes desmente ter feito qualquer pedido de desculpas.

 Tendo em conta que de um lado temos a palavra de um regime corrupto, sem escrúpulos, nem remorsos, rodeado de servos medíocres e de outro a palavra de Pedro Rosa Mendes, espanta-me que o título não tenha sido outro. Não acredito que a escolha tenha sido inocente  e talvez não me devesse espantar  com ela, porque a única das virtudes do “caso Rosa Mendes” é pôr preto no branco o que se passa nos  bastidores nos órgãos de comunicação social. Seja a teia de cumplicidades entre os poderosos – da política, da economia, do futebol, da justiça – e as redacções, ou parte delas ( porque tenho para mim que  muitos jornalistas portugueses, seja de meios públicos ou privados, são íntegros e a sua actuação se pauta pelo respeito da ética). Seja as pressões e interferências directas ou indirectas (que não são novas, nem exclusivas deste Governo) ou seja a precarização da profissão de jornalista, que leva muitos a pautar-se pela “lógica alimentar”, autocensurando-se para manter o lugar.

“Vindo da parte de Luanda, esse tipo de acusações apenas me fazem rebolar a rir”, disse-me  Pedro Rosa Mendes em entrevista. “Repetidas por gente em Portugal como têm sido é um insulto. É um insulto porque o meu percurso de jornalista fala por mim. Sou bastante intolerante não só na qualidade da escrita, que tem sido premiada tanto em Portugal como fora, mas também e sobretudo numa baliza ética e deontológica que é quase fundamentalista. Tenho a certeza de que quando peco, peco por excesso e que ninguém me pode apontar nada em 25 anos de jornalismo a esse nível. Esse tipo de acusações é típico de uma situação de desespero de quem já não tem nada. É uma acusação que, na última década, os vários porta-vozes oficiais e oficiosos da presidência angolana e dos seus círculos, incluindo alguns círculos intelectuais, têm repetido. Uma das versões mais delirantes que me chegou é que existe uma célebre gravação do Pedro Rosa Mendes ajoelhado diante do Presidente, a chorar e a pedir desculpa. Adorava que essa gravação fosse posta no YouTube para fazer um sucesso planetário”.

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