A crónica da polémica

“Em directo de Luanda, a RTP serviu nesta segunda-feira aos portugueses e ao mundo – eu vi aqui em Paris – uma emissão a que chamou ‘Reencontro’ e na qual desfilaram, durante duas horas, responsáveis políticos, empresários e comentadores de Portugal  e de Angola, entre alguns palhaços ricos e figuras grotescas do folclore local.

O serviço público de televisão tem estômago para muito, alguns dirão para tudo, mas o Reencontro a que assistimos desta vez foi um dos mais nauseantes e grosseiros exercícios de propaganda e mistificação a que alguma vez assisti. Há até propaganda comestível, quando feita com inteligência, mas nem sequer essa bitola foi conseguida, foi permitida, à emissão. A nossa televisão, a televisão paga por todos e que, de certo modo, é um pouco de cada um de nós, afectiva mas também politicamente,  foi a Luanda socializar com os apparatchik do regime, nos quais deveríamos reencontrar uma Angola irmã, uma Angola feliz, uma Angola nova.

Aconteceu o contrário. Reencontrei nesta emissão a falta de vergonha de uma elite que sabe o poder que tem e o exibe em cada palavra que diz. Não no conteúdo, mas no tom, seguro, simpático, veladamente sobranceiro. Aquela gente –  as divas, os engravatados, os socialites – são. ao mesmo tempo, a couraça e as lantejoulas de uma clique produzida pela história recente de um país que combinou uma guerra de 30 anos e uma riqueza concentrada, basicamente, no petróleo.

Oleocracia, chamou-lhe a socióloga francesa Christine Messiant, falecida faz agora anos, e que identificou como ninguém a natureza do poder de José Eduardo dos Santos, do MPLA, da Grande Família e das suas clientelas. Em poucas linhas, a clique angolana, em torno do Presidente, privatizou o Estado, numa teia de clientes da ‘economia política’ angolana e num aparelho que controla, por um lado, a segurança e o uso da força, e, por outro, as contas vitais da República, como a do petróleo, dos diamantes, do Banco Nacional e do Tesouro.

Os generais e barões da economia política fizeram ganhos astronómicos nas comissões dos contratos de armamento, do petróleo, da manutenção militar, por aí fora, e depois usaram esses recursos  em todos os negócios sensíveis, estratrégicos – as empresas de segurança, as companhias de aviação, os sectores das empresas públicas colocados em leasing, as companhias ligadas às forças armadas e à polícia. Um lucro incalculável e, o melhor, legal!

Como bem explicou Christine Messiant, o controlo da economia pelo topo do poder político (juntando as altas patentes e o politburo informal do Partido) usou e geriu a concorrência internacional, beneficiando a conivência, a colaboração ou a assistência de grupos estrangeiros na banca, no sector energético.

É esta, resumindo, a face verdadeira da nova Angola: o novo poder económico é apenas a nova máscara do velho poder político. Uma maquilhagem sofisticada mas óbvia, o bâton da ditadura, parafraseando o grande jornalista Rafael Marques.

Num reencontro digno para ambos os povos e ambas as audiências, teria havido por exemplo Rafael Marques, ou alguém que chamasse à corrupção, corrupçlão, e não, quase a medo, numa única pergunta, ‘um certo tipo de corrupção’, como fez Fátima Campos Ferreira.

Quem se encontra com a realidade de Angola, encontra a violência brutal nas Lundas diamantíferas, os despojos da guerra civil no tecido social e produtivo, a conflitualidade social latente entre quem tem o mundo e quem não é sequer dono da sua vida, ou a pobreza dos musseques de Luanda, que não desaparecem com o cair do cetim vermelho de um banco como na publicidade que embrulhou a emissão da RTP. Já agora, gostaria de ter reencontrado outros portugueses: os milhares que vão para Angola em fuga de um país sem esperança, o nosso, como se ia nos anos 50, e, como então, enfiados como semi-escravos e semi-reféns à mercê dos seus patrões – agora angolanos – num estaleiro, numa pedreira ou numa fazenda algures fora do alcance das visitas oficiais que chegam a Luanda.

Nesta emissão, enfim, Portugal confirmou que, como antes os nossos colonos, apenas temos a subserviência quando a situação não nos permite o abuso. É no que estamos. ‘Qual o objectivo do investimento angolano no estrangeiro?’, perguntava a jornalista. A resposta foi dada pela própria emissão: respeitabilidade. Luanda apenas compra aquilo que sabe que não tem.”

Pedro Rosa Mendes

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